Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 44 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo LXV

Mas viveràs, Ignes, que amor ordena

Nestas memorias, donde a tyrannia

Por naõ lograr-se mal a minha pena,

Debuxàra melhor tua galhardia:

Aqui veràs, Ignes, se me condena

Amor, que por tyranno se avalia,

A fazer impossiveis, pois discorro

Viver lembrado, quando auzente morro.

 

LXV.

Morra no ramalhete flor cobarde

A que Rosa nasceo mais alentada,

Vomitando rubins pague na tarde

Quantas perolas bebeu na madrugada:

Seja bruto fiscal de tanto alarde

O mesmo dia, que a chorou cortada,

Que nenhuma manhãa, nem tarde temo

As contas tomar possa a tanto extremo.

 

LXVI.

Aqui passo tal vez a mais quererte,

Onde chego mais fino a mais lembrarme, Porque foraõ distancias de naõ verte

Incentivos quiçà para olvidarme:

Mas nem topo motivos de perderte

Nesses teus infalliveis de deixarme,

Que, sendo vida minha, sò pudera

Por perdida julgarte, se eu morrera.

 

LXVII.

Assim se queixa Pedro, quando ausente

Daquellas prendas nunca esquecidas, Pois amor, que lembradas as consente,