Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo LXV
Mas viveràs, Ignes, que amor ordena
Nestas memorias, donde a tyrannia
Por naõ lograr-se mal a minha pena,
Debuxàra melhor tua galhardia:
Aqui veràs, Ignes, se me condena
Amor, que por tyranno se avalia,
A fazer impossiveis, pois discorro
Viver lembrado, quando auzente morro.
LXV.
Morra no ramalhete flor cobarde
A que Rosa nasceo mais alentada,
Vomitando rubins pague na tarde
Quantas perolas bebeu na madrugada:
Seja bruto fiscal de tanto alarde
O mesmo dia, que a chorou cortada,
Que nenhuma manhãa, nem tarde temo
As contas tomar possa a tanto extremo.
LXVI.
Aqui passo tal vez a mais quererte,
Onde chego mais fino a mais lembrarme, Porque foraõ distancias de naõ verte
Incentivos quiçà para olvidarme:
Mas nem topo motivos de perderte
Nesses teus infalliveis de deixarme,
Que, sendo vida minha, sò pudera
Por perdida julgarte, se eu morrera.
LXVII.
Assim se queixa Pedro, quando ausente
Daquellas prendas nunca esquecidas, Pois amor, que lembradas as consente,