Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 19 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo LV

A parte me deyxais, com que padeço;

Que como neste mal por excessivo

Repartida minha alma reconheço,

Se levais huma parte naõ pequena,

A vida póde ser, mas nunca a pena.

 

LV.

Oh! torna atraz arroyo fugitivo,

Alma da penha, coraçaõ do monte,

Torna atraz, que meu pranto successivo

Te fará Rio quando apenas fonte,

Oh! torna atraz veloz, detem-te esquivo,

Detem-te, espera, que meus males conte, Que vás talvez com prata taõ custosa

Calçar as plantas de huma ingrata Rosa.

LVI.

Se te vás despenhar ambicioso

Por aspirar a creditos de Rio,

Léva meu triste pranto lachrimoso,

Oceâno será teu senhorîo:

Embarga teu correr taõ cuidadoso,

Suspende teu caudal, teu desvarîo,

Que lá terás no már onde te escondas,

Quantas lagrimas levas, tantas ondas.

 

LVII.

Mas oh! paray razoens, tornay gemidos,

A dor interpretay, que o peito sente,

Que talvez em meus ays por repetidos

Os eccos ouça de quem choro ausente: Ay! doce ausente meu, naõ dos sentidos, Ay! quem pudéra amor ter-vos presente!