Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo LV
A parte me deyxais, com que padeço;
Que como neste mal por excessivo
Repartida minha alma reconheço,
Se levais huma parte naõ pequena,
A vida póde ser, mas nunca a pena.
LV.
Oh! torna atraz arroyo fugitivo,
Alma da penha, coraçaõ do monte,
Torna atraz, que meu pranto successivo
Te fará Rio quando apenas fonte,
Oh! torna atraz veloz, detem-te esquivo,
Detem-te, espera, que meus males conte, Que vás talvez com prata taõ custosa
Calçar as plantas de huma ingrata Rosa.
LVI.
Se te vás despenhar ambicioso
Por aspirar a creditos de Rio,
Léva meu triste pranto lachrimoso,
Oceâno será teu senhorîo:
Embarga teu correr taõ cuidadoso,
Suspende teu caudal, teu desvarîo,
Que lá terás no már onde te escondas,
Quantas lagrimas levas, tantas ondas.
LVII.
Mas oh! paray razoens, tornay gemidos,
A dor interpretay, que o peito sente,
Que talvez em meus ays por repetidos
Os eccos ouça de quem choro ausente: Ay! doce ausente meu, naõ dos sentidos, Ay! quem pudéra amor ter-vos presente!