Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 54 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Oitavas

 

Sobre assistir na Corte, para onde veyo solicitar o haverem a

liberdade de seu marido.

 

I.

He muito natural de quem carece,

Do bem q̃ desprezou, ou q̃ despreza,

Louvalo a quem o tem, porque conhece,

Que louvado se ama, estima, e preza:

E como bens mais altos appetece,

Toma de mòr estado, mòr empreza,

O bem que desprezou esse festeja,

E o bem que naõ alcança, esse deseja.

 

II.

Na corte em que morais louvais a fonte,

O monte, a solidaõ, bosque cerrado,

Da qual muito dizeis do prado, e monte,

Mas muyto mais se vè no monte, e prado; Por mais que ninguem diga, e mais que cõte Naõ fica ditto nada, nem contado,

Porque he o que se diz morta pintura,

E o que se vè real viva figura.

 

III.

Eu cà no monte moro, e naõ com elle,

Vòs na corte morais, mas he com ella,

Quem logra o monte logra o doce delle, Quem sofre a corte sofre o agro della: