Saudades de D. Ignez de Castro
Oitavas
Sobre assistir na Corte, para onde veyo solicitar o haverem a
liberdade de seu marido.
I.
He muito natural de quem carece,
Do bem q̃ desprezou, ou q̃ despreza,
Louvalo a quem o tem, porque conhece,
Que louvado se ama, estima, e preza:
E como bens mais altos appetece,
Toma de mòr estado, mòr empreza,
O bem que desprezou esse festeja,
E o bem que naõ alcança, esse deseja.
II.
Na corte em que morais louvais a fonte,
O monte, a solidaõ, bosque cerrado,
Da qual muito dizeis do prado, e monte,
Mas muyto mais se vè no monte, e prado; Por mais que ninguem diga, e mais que cõte Naõ fica ditto nada, nem contado,
Porque he o que se diz morta pintura,
E o que se vè real viva figura.
III.
Eu cà no monte moro, e naõ com elle,
Vòs na corte morais, mas he com ella,
Quem logra o monte logra o doce delle, Quem sofre a corte sofre o agro della: