Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 18 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo LII

Correy livres, correy, que amor ordena,

Sejais a meu rigor ancia penosa,

Que naõ comprais alivios a huma pena,

Quando chegais a ser paga forçosa:

Que pois amor por força me condena

Tributar-vos por divida custosa;

Mal podeis mitigar o mal, que tenho,

Quando sois do que devo desempenho.

 

LII.

Naõ me póde obrigar outro motivo,

Se naõ chorar-vos só por naturesa,

Que quer, que seja amor por excessivo

Tributo natural, o que he finesa:

Que como a seu querer sujeita vivo,

Rendida a seu querer captiva, e presa,

Do pranto, que saudosa me convinha,

Se naõ pode isentar a affeyçaõ minha.

 

LIII.

Em vós sentir agora mais penosas,

De ser mudas razoens faço argumento,

Que quando naõ chegais a ser queyxosas, Naõ limitaes a dor ao sentimento:

Que foreis só lisonjas enganosas,

Mas naõ crueis verdugos ao tormento,

Quando na voz queixosa, que formára,

Lastimas a meus ays solicitára.

 

LIV.

Mais duro sentimento, mais nocivo

No ser da alma pedaços vos confesso, Pois se levais a parte com que vivo,