Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo LII
Correy livres, correy, que amor ordena,
Sejais a meu rigor ancia penosa,
Que naõ comprais alivios a huma pena,
Quando chegais a ser paga forçosa:
Que pois amor por força me condena
Tributar-vos por divida custosa;
Mal podeis mitigar o mal, que tenho,
Quando sois do que devo desempenho.
LII.
Naõ me póde obrigar outro motivo,
Se naõ chorar-vos só por naturesa,
Que quer, que seja amor por excessivo
Tributo natural, o que he finesa:
Que como a seu querer sujeita vivo,
Rendida a seu querer captiva, e presa,
Do pranto, que saudosa me convinha,
Se naõ pode isentar a affeyçaõ minha.
LIII.
Em vós sentir agora mais penosas,
De ser mudas razoens faço argumento,
Que quando naõ chegais a ser queyxosas, Naõ limitaes a dor ao sentimento:
Que foreis só lisonjas enganosas,
Mas naõ crueis verdugos ao tormento,
Quando na voz queixosa, que formára,
Lastimas a meus ays solicitára.
LIV.
Mais duro sentimento, mais nocivo
No ser da alma pedaços vos confesso, Pois se levais a parte com que vivo,