Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 56 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo VII

Onde os merecimentos se escurecem,

Com fantasticos lumes, que apparecem.

 

VII.

O fim da pertençaõ he duvidoso,

E o trabalho della sempre he certo,

Mas se o mal vos afasta, que he penoso, O apparente bem chegarvos perto;

O dezejo do fim traz-vos mimoso,

Molesta-vos porèm o vello incerto,

E se sabe a proveito o falso engano,

Depois de experimentado sabe a damno.

 

VIII.

Ahi onde se vem com liberdade

Andar todos os doudos desatados,

Aquem, ou a sciencia, ou dignidade,

Por mal de quem os vè tras embuçados,

Detras da vã mentira anda a verdade,

Para poder falar com os mais privados,

Ahi vos he pezado, mas forçoso,

Rogar, fingir, temer, e estar queixoso.

 

IX.

Rogar a peito duro, e empedernido,

Que só com metais ricos se quebranta,

Em que lançais algum, mas taõ perdido,

Que nem pode ser situ, nem ser manta,

Rogar por termo humilde, mas fingido,

Que vos abate avòs, outrem levanta, Rogo que faz Senhor, ao que he ouvinte, E ao que roga faz pobre pedinte.