Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 10 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo XXVI

O suspiro final a seus pesares:

Que com vir entre lagrimas undosas,

Inda na bocca achou maré de rosas.

 

XXVI.

Já Pedro em fim rendido a seu cuidado,

A dôr quer disfarçar a seu retiro;

Que como o coraçaõ tem já quebrado,

Hum pedaço lhe traz cada suspiro:

E como em fim no peito agonizado

Sente da mortal frecha o novo tiro,

Notando Ignez no pranto de seu rogo,

Exhála em agoa, quanto bebe em fogo.

 

XXVII.

Naõ chores, diz, formosa Ignez, agora

Ficar ausente sem partir commigo,

Que se es vida da minha, que te adora,

Na alma te levo por viver comtigo:

Naõ pertendo ausentar-me hoje, Senhora, Supposto que partir-me em fim prosigo;

Que se as almas trocar amor consente,

Nem tu só ficas, nem me parto ausente.

 

XXVIII.

O corpo só se ausenta, a alma naõ parte, Que em fim naõ vivo de potencias suas,

Que como me alimento só de amar-te,

Bastaõ para viver memorias tuas:

E porque amor nos tiros, que reparte,

Fulmina contra mim frechas mais cruas; Quando a vida me rouba, outra me ordena, Que fora em fim matar-me a menor pena.