Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 21 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo LXI

Pois só quer meu sentido avincular-se,

Para mais padecer, a mais lembrar-se.

 

LXI.

Assim chorava Ignez, e assim gemia,

Mas oh tragica dor! rara estranhesa!

Que já tópa nas maõs da tyrannia

Armas sempre mortaes contra a bellesa:

Nas maõs de dous tyrannos já se via,

Entre crueis espadas, tosca empresa!

Mas que Rosa no campo Aurora molhas, A que naõ falte a vida, e sóbrem folhas?

 

LXII.

Paray, detende a furia procellosa,

Paray, paray, detende o bruto alento:

Que contra o fresco mimo de huma Rosa, Ah! que sobeja hum Sol, e basta hũ vento? Mas ay! discreta Ignez, Garça formosa,

Remonta agora mais teu soffrimento,

Que temo, linda Ignez, teus lindos brios

Accrescentem coraes a tantos fios.

 

LXIII.

Qual nas tecidas silvas da espessûra,

Labyrintho de espinhas intrincado

Com balîdos se queyxa da ventura

O simples cordeyrinho aprisionado:

Já soluça em melindres com ternûra

Das maternas delicias apartado:

O que mimos achou na branda hervinha, Acha mortal rigor em cada espinha.