Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo IV
Das agoas que de vós estaõ manando
Fazey hum rio claro, hum rio manso,
Que eu folgo de vos ver cançar chorando Pois chorando ganhais vosso descanço;
Nas cousas em que vos hides cansando
Nessas me alegro, e eu nessas descanço, E pois nos faz o choro descançados,
Choray, sem descançar, olhos cançados.
IV.
Choray naõ descanceis, pois que ganhais Chorando quantos bens aqui perdestes;
Póde ser, que nas agoas, que chorais,
Laveis as nodoas grandes, que fizestes:
Choray as grandes magoas, que me dais, Pelo gosto, que vós sem mim tivestes:
Choray males presentes, e passados,
Choray, sem descançar, olhos cançados.
V.
Tantas agoas de vós sejaõ lançadas,
Que affoguem vossos torpes desvarîos:
E posto que estas agoas saõ salgadas
Por ellas se navéga a doces Rios:
Soffrey, por ver-des culpas affogadas,
Tempestades crueis, calmas, e frios;
Choray, se dezejais ser perdoados,
Choray, sem descançar, olhos cançados.
VI.
Acîma desta terra tem subido
As agoas do diluvio taõ sómente;