Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo XLV
Naõ reste planta, que se atreva a tãto,
Que naõ murche dos ays enternecidos,
Rosa naõ fique, que, a pesár do espanto, Se naõ séque ludibrio dos gemidos:
Em fim, duplique a dor, prodûza o pranto
Lastimosos naufragios dos sentidos;
Seja neste pesár, nesta esquivança
Charybdes da alma o Cabo da esperança.
XLVI.
Mas ay! que as plantas no desdẽ da idade, Mas ay! que as flores no rigor de hũ vento, A naõ serem Jasmins na brevidade,
Naõ seriaõ Perpetuas no tormento:
Só tu terrivel ancia da saudade
Eternizas agora o sentimento;
Porque quando matar-me amor ordena,
Me deixas vida, com que o corpo pena.
XLVII.
Quem soubéra cuidar, que a mais crescida Tyrannîa cruel da dor mais forte
Fosse, quando nas perdas de huma vida Impossiveis sentisse de huma morte:
Mas he rigor da magoa repetida
Por industria fatal da iniqua sorte;
Porque quando talvez matar-me trata,
Por topar-me sem vida, naõ me mata.
XLVIII.