Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 38 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo XLV

Naõ reste planta, que se atreva a tãto,

Que naõ murche dos ays enternecidos,

Rosa naõ fique, que, a pesár do espanto, Se naõ séque ludibrio dos gemidos:

Em fim, duplique a dor, prodûza o pranto

Lastimosos naufragios dos sentidos;

Seja neste pesár, nesta esquivança

Charybdes da alma o Cabo da esperança.

 

XLVI.

Mas ay! que as plantas no desdẽ da idade, Mas ay! que as flores no rigor de hũ vento, A naõ serem Jasmins na brevidade,

Naõ seriaõ Perpetuas no tormento:

Só tu terrivel ancia da saudade

Eternizas agora o sentimento;

Porque quando matar-me amor ordena,

Me deixas vida, com que o corpo pena.

 

XLVII.

Quem soubéra cuidar, que a mais crescida Tyrannîa cruel da dor mais forte

Fosse, quando nas perdas de huma vida Impossiveis sentisse de huma morte:

Mas he rigor da magoa repetida

Por industria fatal da iniqua sorte;

Porque quando talvez matar-me trata,

Por topar-me sem vida, naõ me mata.

 

XLVIII.