Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo IV
Se delle por diante me escuzava,
Notai deste meu mal este segredo,
Que sendo matador, he falso, e tredo.
IV.
Em vós todos os bens vi contrafeitos,
Cujas internas formas eraõ dores,
Em vós topey pastores lobos feitos,
Porém ainda em trajos de pastores;
A estes procureis, e vãos respeitos,
Dos bens alheyos vi destruidores,
Gostando só do mal que entaõ causavaõ, E roubando os taes bens, que naõ gostavaõ.
V.
Mais feroces, que lobos, pois que querem Sustentar-se dos males, que causarem:
Que os lobos mataõ gado por comerem,
Mas estes só matavaõ por matarem;
Sómente se recream em offenderem,
Os que mais suas leys contrariarem,
Porque a contradicçaõ faz inimigos
Daquelles, que antes della foraõ amigos.
VI.
Nenhum seu proprio estado já respeita
E trazem nas aldeas em que moraõ
Rebuços de virtude contrafeita,
E rostos naturaes do mal que adoraõ: Condẽnam a ley do Ceo por muito estreita, E em todas por seu mal sempre peòram, Taõ amigos do bem, que vivo o enterram, E taõ destros no mal, que nunca o erraõ.