Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 60 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo IV

Se delle por diante me escuzava,

Notai deste meu mal este segredo,

Que sendo matador, he falso, e tredo.

 

IV.

Em vós todos os bens vi contrafeitos,

Cujas internas formas eraõ dores,

Em vós topey pastores lobos feitos,

Porém ainda em trajos de pastores;

A estes procureis, e vãos respeitos,

Dos bens alheyos vi destruidores,

Gostando só do mal que entaõ causavaõ, E roubando os taes bens, que naõ gostavaõ.

V.

Mais feroces, que lobos, pois que querem Sustentar-se dos males, que causarem:

Que os lobos mataõ gado por comerem,

Mas estes só matavaõ por matarem;

Sómente se recream em offenderem,

Os que mais suas leys contrariarem,

Porque a contradicçaõ faz inimigos

Daquelles, que antes della foraõ amigos.

 

VI.

Nenhum seu proprio estado já respeita

E trazem nas aldeas em que moraõ

Rebuços de virtude contrafeita,

E rostos naturaes do mal que adoraõ: Condẽnam a ley do Ceo por muito estreita, E em todas por seu mal sempre peòram, Taõ amigos do bem, que vivo o enterram, E taõ destros no mal, que nunca o erraõ.