Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 12 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo XXXII

Nessas gentîs madeixas da beldade,

Em cuja luz do Sol o Sol se nega,

Onde feito piráta da vontade

Nas crespas ondas sempre amor navega: Nessas, digo, captiva a liberdade

Em refens minha fé por fé te entrega:

Nellas deixo por fim com meus alentos

Alma, cuidados, vida e pensamentos.

 

XXXIII.

A Deos delicia minha, a Deos cuidado,

A Deos Senhora, a Deos, que amor cõsente, Que parta em fim nas magoas sepultado

Se partir posso de mim mesmo ausente:

A Deos, que amor nos tinha decretado

Esta ausencia cruel, forçosa, urgente;

Mas ay! formosa Ignez, q̃ em vaõ me queixo: A Deos, q̃ em fim me parto, em fim te deixo.

XXXIV.

Já se remonta Pedro a seus retiros,

E já de morte em morte Ignez discorre,

Que como entrega a vida a seus suspiros, Quantas vezes suspira, tantas morre:

O coraçaõ sentindo acérbos tiros

Pelos olhos sangrado em crystaes corre; Mas oh! que no sangrar-se em vaõ se cansa, Porque em cada sangria huma alma lança.

 

XXXV.