Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo XXXII
Nessas gentîs madeixas da beldade,
Em cuja luz do Sol o Sol se nega,
Onde feito piráta da vontade
Nas crespas ondas sempre amor navega: Nessas, digo, captiva a liberdade
Em refens minha fé por fé te entrega:
Nellas deixo por fim com meus alentos
Alma, cuidados, vida e pensamentos.
XXXIII.
A Deos delicia minha, a Deos cuidado,
A Deos Senhora, a Deos, que amor cõsente, Que parta em fim nas magoas sepultado
Se partir posso de mim mesmo ausente:
A Deos, que amor nos tinha decretado
Esta ausencia cruel, forçosa, urgente;
Mas ay! formosa Ignez, q̃ em vaõ me queixo: A Deos, q̃ em fim me parto, em fim te deixo.
XXXIV.
Já se remonta Pedro a seus retiros,
E já de morte em morte Ignez discorre,
Que como entrega a vida a seus suspiros, Quantas vezes suspira, tantas morre:
O coraçaõ sentindo acérbos tiros
Pelos olhos sangrado em crystaes corre; Mas oh! que no sangrar-se em vaõ se cansa, Porque em cada sangria huma alma lança.
XXXV.