Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo IV
E com me parecer que vos detinheis,
O vosso vaõ soheyto me mostrava,
Ser taõ certa a mudança do que tinheis
Como a posse do bem que entaõ lograva: Cuidey, ó horas breves, quando vinheis,
Que o tempo por algum tempo vos dava, Mas nunca presumio esta alma minha,
Que vos visse mudadas taõ azinha.
IV.
Bem podes em breve tempo conhecer,
Que por discurso as cousas vay sabendo, Que a brevidade occulta do prazer,
Da vaidade delle está nascendo;
Mas como a payxaõ tira o saber,
Naõ pude nesse tempo ir entendendo,
Que vos mudasse o vil contentamento,
Em taõ compridos annos de tormento.
V.
Naõ julga o vaõ juizo apaixonado,
Com segunda razaõ, alta, e profunda,
Que quando o fundamento vay errado,
Errado hade ficar quanto se funda;
Assim para ficar mais magoado,
E porque o erro meu mais se confunda,
Em vento resolveo meu fundamento,
As minhas torres, que fundei no vento.
VI.
Naõ pode ser constante a esperança,
Fundada sobre hum falso pensamento, Porque a constante, e firme segurança