Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 64 de 95

Páginas do PDF

Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo XVII

Quem nunca aborreceo o ferro agudo

Com que o barbeyro destro dà a sangria, Se para o mal que vem serve de escudo, Lançando à força o mal que havia:

Quem trata mal o instrumento tudo,

Que dente lhe arrancou, que lhe dohia?

Amem-se pois amigos que daõ pena,

Pois Deos meyos os faz do bem que ordena.

 

XVII.

Chorẽse os dãnos seus que naõ conhecem, Pois que primeiro a si se offendem, e mataõ, Com os males com que os justos enriquecẽ, Que exercitaõ no bem quando maltrataõ, A si oprimem, damnaõ, a si empobrecem, A si destruem, cansaõ, e disbarataõ,

A quem dos bens alheyos qualquer copia, Serve de afronta, penna, e magoa propria.

 

XVIII.

O profeta David Deos defendia,

Do Rey perverso injusto que o buscava,

Saul por huma parte o perseguia,

E Deos por outra parte o sublimava,

Levanta-o Deos por Rey, porque o sofria, Destroe Deos o Rey que o invejava,

Quem sofre reyna, quem perdoa alcança, He o odio do mào a espada, e a lança.

 

XIX.

Assim que està por ley jà definido,

A qual se tem no mundo publicado, Que em bẽ redunda o mal quãdo he sofrido, E empena fica o bem quando he passado; Hum passando deixou triste o sentido,