Saudades de D. Ignez de Castro
Malicia.
Por mais que as outras me afagem
E por branduras me levem,
Nenhuma cousa me devem,
Que dobrado me naõ paguem.
Malicia.
Só de mim todo o mal vem
Ou mortal, ou venial,
Sou inventora do mal,
Destruidora do bem.
Incredulidade.
De meu mal endurecida,
Só por mesma me eu rejo,
O mal creyo só de ouvida,
E o bem nem quando o vejo.
Odio.
Nunca procuro meu bem,
Porque meu mal naõ conheço,
Sou penna de quem me tem,
Sem ser mal de quem aborreço.
Hypocresia.
Sou dobrada, triste, e rude,
Enganar he meu officio;
Pela casca sou virtude,
Mas pelo miolo vicio.
Murmuraçaõ.