Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 22 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo LXIV

Tal lastimada Ignez troca em gemidos,

Quantas vozes no peito articulava,

Em quanto os dous algoses sementidos

As maõs lhe prendẽ, com que amor matava: Já fugindo os alentos aos sentidos,

O soluçar as vozes lhe embargava:

Mas oh! que amor lhe deo no pensamento Razoens ao pranto, voz ao sentimento.

 

LXV.

Ay tyrannos crueis! oh sorte dura!

Entre suspiros, diz agonizada,

Que delicto commette a formosura,

Com que possa a bellesa ser culpada?

Oh! deyxai-me esta vida em pena escura, Se me quereis a morte dilatada;

Que nesta triste dor taõ repetida

Menos me mata a morte, do que a vida.

 

LXVI.

Oh! suspendey sentença taõ penosa,

Mitigay por hum pouco a crueldade,

Que naõ podeis dar morte rigorosa,

Que possa matar mais, que a saudade:

Mas já que minha dôr menos piedosa,

Vos naõ póde causar nova piedade,

Naõ me roubeis meus filhos, taõ queridos, Unica prenda só de meus sentidos.

 

LXVII.