Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo LXVIII
As pintou bellas, quando as vio perdidas; Quando nas pennas, que dobradas sente, Quando nas queixas, que repete unidas,
Jà desmayando pasma, porque ordena
A mesma queixa, que se calle a penna.
LXVIII.
Qual o Lyrio gentil nas mãos da tarde,
Quando fragoas se alenta, incendios gyra, Funesta tumba de seu mesmo alarde,
Bebendo rayos, abrazado espira:
O que roxo matìz a pennas arde,
Parda nuvem murchando se retira,
Em quanto a Aurora tarda, q̃ de hum rayo Lhe corre galas para novo ensayo.
LXIX.
Assim Pedro se pasma, e naõ consente
Os sentidos queyxumes, que derrama,
Que se vive queixoso quem mais sente;
Poem limite nas queixas quẽ mais ama;
Mas aqui lhe concede amor presente
Aquellas prendas, com que mais o inflãma, Que saõ talvez motivos do socego
As memorias gentis do doce emprego.
LXX.
Agora, humanas prendas, se entendidas
O desdem desprezais da infausta sorte,
Que naõ duraõ taõ pouco vossas vidas,
Que naõ saibaõ passar àlem da morte: Attentay, se notardes advertidas,
Que naquelle de amor rigor mais forte
Aconteceo da misera, e mesquinha,
Que depois de ser morta foy Rainha.
FIM
Da segunda parte.
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