Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 45 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo LXVIII

As pintou bellas, quando as vio perdidas; Quando nas pennas, que dobradas sente, Quando nas queixas, que repete unidas,

Jà desmayando pasma, porque ordena

A mesma queixa, que se calle a penna.

 

LXVIII.

Qual o Lyrio gentil nas mãos da tarde,

Quando fragoas se alenta, incendios gyra, Funesta tumba de seu mesmo alarde,

Bebendo rayos, abrazado espira:

O que roxo matìz a pennas arde,

Parda nuvem murchando se retira,

Em quanto a Aurora tarda, q̃ de hum rayo Lhe corre galas para novo ensayo.

LXIX.

Assim Pedro se pasma, e naõ consente

Os sentidos queyxumes, que derrama,

Que se vive queixoso quem mais sente;

Poem limite nas queixas quẽ mais ama;

Mas aqui lhe concede amor presente

Aquellas prendas, com que mais o inflãma, Que saõ talvez motivos do socego

As memorias gentis do doce emprego.

 

LXX.

Agora, humanas prendas, se entendidas

O desdem desprezais da infausta sorte,

Que naõ duraõ taõ pouco vossas vidas,

Que naõ saibaõ passar àlem da morte: Attentay, se notardes advertidas,

Que naquelle de amor rigor mais forte

Aconteceo da misera, e mesquinha,

Que depois de ser morta foy Rainha.

 

FIM

Da segunda parte.

 

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