Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo XIII
Em saudosos ays o doce alento.
XIII.
Ay! cadûco prazer, diz lastimada,
Esperança de hum bem, doce tormento,
Ay! que por verde murchas apressada,
Primavéra do amor, da dor portento:
Ay! melindrosa flor agonizada,
Despojado Jasmim de qualquer vento,
Que quando nasce traz na mesma alvûra Gala, mortalha, berço, e sepultura.
XIV.
Ay! que chegas, oh dia! em que amor tira Duas almas de hum peito, oh noite fria!
Oh noite, digo, porque a quem suspira,
Fóge a luz, morre o Sol, acaba o dia:
A bocca, de que hum ay, outro ay, retira, Jà cansando, mais bayxo repetia,
Paray Senhor; mas hum soluço ardente
Suffóca o par, repete o ay sómente.
XV.
Paray, torna a dizer, meu gosto amado,
Gloria desta alma, em quanto gloria tinha; Mas ay alivio meu! ay meu cuidado!
Como podeis parar, se gloria minha!
Mas se destîna o Céo, e manda o Fado
Esta alma castigar, que amor mantinha,
Deixai-me a vossa, porque a sorte ordene, Mais almas tenha, porque assim mais pene.