Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 6 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo XIII

Em saudosos ays o doce alento.

 

XIII.

Ay! cadûco prazer, diz lastimada,

Esperança de hum bem, doce tormento,

Ay! que por verde murchas apressada,

Primavéra do amor, da dor portento:

Ay! melindrosa flor agonizada,

Despojado Jasmim de qualquer vento,

Que quando nasce traz na mesma alvûra Gala, mortalha, berço, e sepultura.

 

XIV.

Ay! que chegas, oh dia! em que amor tira Duas almas de hum peito, oh noite fria!

Oh noite, digo, porque a quem suspira,

Fóge a luz, morre o Sol, acaba o dia:

A bocca, de que hum ay, outro ay, retira, Jà cansando, mais bayxo repetia,

Paray Senhor; mas hum soluço ardente

Suffóca o par, repete o ay sómente.

 

XV.

Paray, torna a dizer, meu gosto amado,

Gloria desta alma, em quanto gloria tinha; Mas ay alivio meu! ay meu cuidado!

Como podeis parar, se gloria minha!

Mas se destîna o Céo, e manda o Fado

Esta alma castigar, que amor mantinha,

Deixai-me a vossa, porque a sorte ordene, Mais almas tenha, porque assim mais pene.