Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo VII
Mas vòs a quem a dor custa mais caro,
Direis do damno della atormentado,
Que naõ chorais da esposa o rico amparo Mas que chorais a vòs desamparado.
Porèm sabendo Deos que era muy raro,
Poder viver sem amar, e ser amado,
Amar sua belleza vos convida,
E quer que vendo a morte, ameis a vida.
VIII.
Porque este autor de toda a formosura,
Movido da feição, não de rigor,
Vos tira dante os olhos a pintura,
Porque ponhais os olhos no pintor;
O casto amor que tinheis foy figura,
Do real, verdadeiro, e puro amor,
Que se Deos vos tirou cousa tào bella,
Foy por vos dar a si que o he mais que ella.
IX.
As cousas que da terra vaõ passando,
Que nòs andamos nella pretendendo,
Naõ saõ para os lograr nellas parando,
Mas para Deos por ellas irmos vendo;
Assim esta que vos hieis amando,
Sabey, que ordenou Deos, segundo entendo, Que no humano amor vos enssayasseis, Porque o divino amor representasseis.