Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo XXIX
Mas nota, Ignez formosa, esta fineza,
A fazer impossiveis offrecida,
Pois que contraminando a natureza,
Teu mesmo amor me mata, e me dá vida: Mas como amor notou nessa belleza
Os impossiveis só de merecida,
Quiz tomar por razaõ força infallivel,
Obrar por alcançá-la outro impossivel.
XXX.
Bem vês agora, Ignez, como abrasado
Nos vivos holocaustos de meu peito,
Meu coraçaõ consagro a teu cuidado
Em victimas de lagrimas desfeito:
Agora alcançarás, como alentado
Todo me sacrifico a teu respeito,
Pois chega a consagrar-te em viva calma Sangue do coraçaõ, reliquias da alma.
XXXI.
Sucçeda á Primavera o secco Estio,
Á serena manhaã tarde calmosa,
Seja manso regato, quem foy rio,
Sejaõ seccas reliquias, quem foy Rosa:
Seja, quem Cravo foy, cadáver frio,
Seja quem foy Jasmim, cinza olorosa
Seja tudo á mudança em fim sujeito,
Que amor firme será dentro em meu peito.