Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 11 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo XXIX

Mas nota, Ignez formosa, esta fineza,

A fazer impossiveis offrecida,

Pois que contraminando a natureza,

Teu mesmo amor me mata, e me dá vida: Mas como amor notou nessa belleza

Os impossiveis só de merecida,

Quiz tomar por razaõ força infallivel,

Obrar por alcançá-la outro impossivel.

 

XXX.

Bem vês agora, Ignez, como abrasado

Nos vivos holocaustos de meu peito,

Meu coraçaõ consagro a teu cuidado

Em victimas de lagrimas desfeito:

Agora alcançarás, como alentado

Todo me sacrifico a teu respeito,

Pois chega a consagrar-te em viva calma Sangue do coraçaõ, reliquias da alma.

 

XXXI.

Sucçeda á Primavera o secco Estio,

Á serena manhaã tarde calmosa,

Seja manso regato, quem foy rio,

Sejaõ seccas reliquias, quem foy Rosa:

Seja, quem Cravo foy, cadáver frio,

Seja quem foy Jasmim, cinza olorosa

Seja tudo á mudança em fim sujeito,

Que amor firme será dentro em meu peito.