Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 39 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo Il

E se fora da vida roubadora

Esta sorte fatal, tormento esquivo,

Tivera só por pena matadora

Qualidades de grande no intensivo:

Mas naõ, que como amor pertende agora Cumulár intensoens ao sensitivo,

Naõ quer, que amor me mate, pois durára Muito menos a pena, se matára.

 

IL.

Agora alcançarás, prenda querida,

Os rigores de amor na minha sorte,

Pois agora me quer roubar a vida,

Só por ma naõ tirar primeyro a morte:

Mas ay! que a pena se duplîca unida:

Mas ay! que a magoa se eternisa forte;

Pois que vejo na dor do mal esquivo,

Que naõ posso morrer, porque naõ vivo.

 

L.

Mas agora na pena, que me entrega,

Vejo, que quer a dôr, e a mais aspira,

Que padeça na morte, que o mal nega,

E que pene na vida, que amor tira:

Aqui verás, Ignez, a quanto chega

Esta pena de amor, que amor, conspira;

Pois agora naõ sey, no que discorro,

Se vivo ausente, nem se ausente morro.

 

LI.

Mas em fim: que me queixo dos rigores,

Com que talvez amor me tyrannisa, Quando mais martyrisaõ seus favores,