Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo Il
E se fora da vida roubadora
Esta sorte fatal, tormento esquivo,
Tivera só por pena matadora
Qualidades de grande no intensivo:
Mas naõ, que como amor pertende agora Cumulár intensoens ao sensitivo,
Naõ quer, que amor me mate, pois durára Muito menos a pena, se matára.
IL.
Agora alcançarás, prenda querida,
Os rigores de amor na minha sorte,
Pois agora me quer roubar a vida,
Só por ma naõ tirar primeyro a morte:
Mas ay! que a pena se duplîca unida:
Mas ay! que a magoa se eternisa forte;
Pois que vejo na dor do mal esquivo,
Que naõ posso morrer, porque naõ vivo.
L.
Mas agora na pena, que me entrega,
Vejo, que quer a dôr, e a mais aspira,
Que padeça na morte, que o mal nega,
E que pene na vida, que amor tira:
Aqui verás, Ignez, a quanto chega
Esta pena de amor, que amor, conspira;
Pois agora naõ sey, no que discorro,
Se vivo ausente, nem se ausente morro.
LI.
Mas em fim: que me queixo dos rigores,
Com que talvez amor me tyrannisa, Quando mais martyrisaõ seus favores,