Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 49 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo X

Chovey, olhos, chovey, iraõ brotando

Os bens, que cõ a secura aqui perdestes; Os quaes se desejais ver restaurados,

Choray, sem descançar, olhos cançados.

 

X.

Com muitas agoas cá vay-se apurando

Qualquer pequeno vaso estando immundo; Mas vós com bem pouca agoa estais lavando Immunda culpa, mór que o mesmo mũdo: Por isso naõ canceis de estar chorando,

De lagrimas fazendo hum mar profundo;

E pois por ellas sois galardoados,

Choray, sem descançar, olhos cançados.

 

XI.

As agoas cá vaõ só satisfazendo

A sede aos animaes, que as vaõ gostando; Mas estas, que de vós estaõ nascendo

A vosso Deos a sede estaõ matando:

Sempre estejaõ de vós agoas correndo,

Pois por ellas o bem vem navegando;

Do qual se quereis ser certificados,

Choray, sem descançar, olhos cançados.

 

XII.

Ninguem se afogarà se naõ lançado

Em agoas que o possaõ estar molhando, Mas vòs sem que molheis vosso peccado, O afogais nesta agoa que ies chorando:

E pois tendes o mal jà desterrado,

E os bens por vossas agoas vaõ entrando Atè que os possais ver desembarcados,