Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo VII
Do vendádo rapaz linda vingança;
Mas os golpes da Parca deshumanos
A belleza por flor em flor alcança,
Exprimentou na sempre amarga sorte
Por maõs do Deos do amor armas da morte.
VII.
Eraõ gentil emprego a seus cuidados
As finesas de Pedro, que a beldade
Nelle soube trazer aprisionados
Sceptro, corôa, vida, e liberdade:
Entre ambos tinha amor já taõ ligados
Os soltos alvedrîos da vontade,
Que foy nelles baldado, e foy perdido
Nascer Antéros por crescer Cupido.
VIII.
Mas oh tyranna dor amor inventa!
Forçosa foy de Pedro a dura ausencia,
Atropos da alma, que da pena isenta,
Nella sabe sentir mortal violencia:
Como preso, partir-se Pedro intenta,
E sente na alma, Ignez, nova inclemencia, Que quer a sorte, pois amor ordêna,
Onde naõ chega a morte, offenda a pena.
IX.
Quantas vezes, Ignez, no pensamento
Este desár notaste a teus favores?
Quantas vezes, Ignez, na maõ do vento
Os viste, e vês agora, e verás flores: