Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo XLII
Já busca cada flor, cada raminho,
Já melindrosos ays, mimoso alento
Apôs o passarinho leva o vento.
XLII.
Tal Ignez na penosa tyrannia
Entre flores inquire o doce amado;
Mas foy lisonja só da fantasîa,
Pois mais se nega hum bem, quãdo buscado: Já queixosa das flores se desvia,
Já nas queyxas diverte o seu cuidado,
E nos alentos da alma, com que espira,
Já soluça, já pasma, já suspira.
XLIII.
Na margem de huma fonte se encostava, Que já clara correo com seus favores,
E se delles travêssa murmurava,
Em lagrimas agora exhála amores:
Ás plantas, aos penhascos se queixava,
Outra vez já seu mal contava ás flores
Onde nos eccos, que respira o monte,
Suspira o valle, porque chora a fonte.
XLIV.
Ay! cadûcas bellezas, lhes dizia;
Ay flores! se queyxava enternecida;
Que sendo vossa vida de hum só dia,
Muitas horas contais na vossa vida:
Mas oh! de minha dor mór agonia,
Oh morte em menor vida repetida!