Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 42 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo LVIII

Deixa a perder de vista huma feresa.

 

LVIII.

Oh debil gloria lisonjeiro ensayo!

Babél da vida, lingua do escarmento,

Desfeita sombra do mais breve rayo,

Quebrado vidro da mais tibio vento:

Jasmim, que pasma de qualquer desmayo, Cravo, que morres de teu mesmo alento! Oh gloria humana! em fim gloria sonhada, Vida, Sombra, Jasmim, ou Cravo, ou nada.

 

LIX.

Aquella bocca, donde a mais lustrosa

Se divisava purpura incendida,

Em quem se vio nascendo a bella Rosa

Com menos folhas, quando mais partida

Agora só se occulta lastimosa

Em desmayos de neve amortecida;

Mas que prenda não tem que formosura, Muito menor a vida que a ventura!

 

LX.

La pretende nascer Cravo lusido,

Mas em casa gentil botão fechado;

Porque aquella manhaã, que o vê nascido, O chorasse primeyro amortalhado:

Quem, ô purpurea flor, taõ presumido?

Mas quem, Cravo gentil, taõ lastimado?

Que lhe chegue a tecer a naturesa

A mortalha primeyro, que a bellesa.