Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo LV
Quem me dissera, logo, que aspirava
Hum cadúco praser a taes rigores!
Quem me disséra então, que da ventura
Era mortal delicto a formosura!
LV.
Quem disséra, que os laços de alvedrios, Gentîs madeixas, onde a naturesa
Repartio liberal por tantos fios
Os melhores extremos da bellesa,
Esses agora, que acabarão brios,
Se arrastão já bandeiras da tristesa?
Mas que muito, se nunca em seus ensayos Nenhum por Louro se isentou de rayos.
LVI.
Oh bem, que pouco duras possuido!
Só logras algum ser, quando esperado;
Nos molestos receyos de perdido
Tyrannizas o gosto de alcançado;
Oh sonhada lisonja do sentido!
Oh mais terrivel ancia do cuidado!
Flor, que apenas se vê, quando se chora Enteada do Sol, filha da Aurora.
LVII.
Aquelles olhos donde o Sol furtava
Os melhores thesouros da vaidade,
E em lusidas capellas consagrava
Dous altares Amor a huma beldade:
Aquelles, cuja luz interpretava
Os occultos archivos da vontade, Estes mesmos erarios da bellesa