Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 41 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo LV

Quem me dissera, logo, que aspirava

Hum cadúco praser a taes rigores!

Quem me disséra então, que da ventura

Era mortal delicto a formosura!

 

LV.

Quem disséra, que os laços de alvedrios, Gentîs madeixas, onde a naturesa

Repartio liberal por tantos fios

Os melhores extremos da bellesa,

Esses agora, que acabarão brios,

Se arrastão já bandeiras da tristesa?

Mas que muito, se nunca em seus ensayos Nenhum por Louro se isentou de rayos.

 

LVI.

Oh bem, que pouco duras possuido!

Só logras algum ser, quando esperado;

Nos molestos receyos de perdido

Tyrannizas o gosto de alcançado;

Oh sonhada lisonja do sentido!

Oh mais terrivel ancia do cuidado!

Flor, que apenas se vê, quando se chora Enteada do Sol, filha da Aurora.

 

LVII.

Aquelles olhos donde o Sol furtava

Os melhores thesouros da vaidade,

E em lusidas capellas consagrava

Dous altares Amor a huma beldade:

Aquelles, cuja luz interpretava

Os occultos archivos da vontade, Estes mesmos erarios da bellesa