Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 36 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo XXXIX

Aprendey dos alinhos da beldade,

De vossa vida, digo, a ser piedosas;

Que sempre foy nas regras da ternûra

Muy capaz de liçoens a formosura.

 

XXXIX.

Paray féras tambem nesses ruidos,

Guardas do monte, archeiros da ferêsa,

Fazey caso das penas, que os bramîdos

Argumentos parecem da brutêsa:

Isto basta, paray, que os entendidos

Pódem talvez notar vossa estranhesa:

Minhas queixas ouvi, que alivio fora,

Quem naõ póde fallar, me ouvisse agora.

 

XL.

Paray broncos penhascos, que o Céo cria Para pardos Atlantes dos retiros,

Se vos vence huma liquida porfia,

Como já resistis a meus suspiros?

Mas oh! que digo! páre a covardia,

Exhále o peyto, multiplique os tiros,

Duplîque amor, e dobre o sentimento,

Agoa nos olhos, nos suspiros vento.

 

XLI.

Ferîdo o coraçaõ tribûte em fogo

Undósa parte, derretido alento,

Se liquida sangrîa ao desaffogo,

Lisonjeira lancêta ao sentimento:

Se excessivo queixúme, ardente rogo,

Se verte em nuvem, se distille em vento, Naõ fique planta, que a pesár do espanto, Naõ morra em fogo, naõ se afogue em prãto.