Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo XXXIX
Aprendey dos alinhos da beldade,
De vossa vida, digo, a ser piedosas;
Que sempre foy nas regras da ternûra
Muy capaz de liçoens a formosura.
XXXIX.
Paray féras tambem nesses ruidos,
Guardas do monte, archeiros da ferêsa,
Fazey caso das penas, que os bramîdos
Argumentos parecem da brutêsa:
Isto basta, paray, que os entendidos
Pódem talvez notar vossa estranhesa:
Minhas queixas ouvi, que alivio fora,
Quem naõ póde fallar, me ouvisse agora.
XL.
Paray broncos penhascos, que o Céo cria Para pardos Atlantes dos retiros,
Se vos vence huma liquida porfia,
Como já resistis a meus suspiros?
Mas oh! que digo! páre a covardia,
Exhále o peyto, multiplique os tiros,
Duplîque amor, e dobre o sentimento,
Agoa nos olhos, nos suspiros vento.
XLI.
Ferîdo o coraçaõ tribûte em fogo
Undósa parte, derretido alento,
Se liquida sangrîa ao desaffogo,
Lisonjeira lancêta ao sentimento:
Se excessivo queixúme, ardente rogo,
Se verte em nuvem, se distille em vento, Naõ fique planta, que a pesár do espanto, Naõ morra em fogo, naõ se afogue em prãto.