Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 73 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo IV

Naõ pode ser piadoso, o que he tyranno, Ninguem em seu tormento, tem sua gloria Em seu proveito pode achar seu damno,

E sua destruiçaõ sua victoria,

Naõ mora o desengano, no engano,

Naõ he a vida eterna transitoria,

Naõ sobe o valle nunca, mais que a serra, Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra.

 

IV.

Naõ pòde ser prudente o vicioso,

Sollicito, sagaz, o descuidado,

Nem manso pode ser o furioso,

Nem pode estar contente o magoado,

Naõ he o temerario temeroso,

Nem he ditoso o mal afortunado,

Ninguẽ em hũ mesmo tempo acerta, e erra, Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra.

 

V.

Naõ pode o que he doença ser saude,

O que he prodigo ser tambem avaro,

Naõ pode ser peccado o que he virtude,

O que custa barato, custar caro;

O engenhoso ser grosseiro, e rude,

Aquillo que he commum puder ser raro,

Naõ resplandece o ouro se se enterra,

Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra.

 

VI.

Naõ he resplandecente o abysmo escuro, Naõ pode ser traiçaõ, o que he lealdade, O puro bem, naõ se acha no mal puro,

A mentira naõ pode ser verdade;

O fundamento vaõ naõ he seguro,

Nem pode ser segura a falsidade,

E assim como naõ cabe o Ceo na terra,

Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra.