Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo IV
Naõ pode ser piadoso, o que he tyranno, Ninguem em seu tormento, tem sua gloria Em seu proveito pode achar seu damno,
E sua destruiçaõ sua victoria,
Naõ mora o desengano, no engano,
Naõ he a vida eterna transitoria,
Naõ sobe o valle nunca, mais que a serra, Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra.
IV.
Naõ pòde ser prudente o vicioso,
Sollicito, sagaz, o descuidado,
Nem manso pode ser o furioso,
Nem pode estar contente o magoado,
Naõ he o temerario temeroso,
Nem he ditoso o mal afortunado,
Ninguẽ em hũ mesmo tempo acerta, e erra, Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra.
V.
Naõ pode o que he doença ser saude,
O que he prodigo ser tambem avaro,
Naõ pode ser peccado o que he virtude,
O que custa barato, custar caro;
O engenhoso ser grosseiro, e rude,
Aquillo que he commum puder ser raro,
Naõ resplandece o ouro se se enterra,
Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra.
VI.
Naõ he resplandecente o abysmo escuro, Naõ pode ser traiçaõ, o que he lealdade, O puro bem, naõ se acha no mal puro,
A mentira naõ pode ser verdade;
O fundamento vaõ naõ he seguro,
Nem pode ser segura a falsidade,
E assim como naõ cabe o Ceo na terra,
Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra.