Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo IV
Diga a corte do monte o bem que ha nelle, Diga o monte da corte o mal que ha nella, Porque he regra direita de amizade,
Que pague huma verdade outra verdade.
IV.
Ahi por dar calor a huma esperança,
Que com dadivas grandes só aquenta,
Se perde o que se tem, e naõ se alcança, Se naõ o que molesta, e que atormenta;
Ahi se peza tudo em tal balança,
Que na maõ desigual só se sustenta,
E com taõ maõ fiel que o mais pezado,
Contra direito tràs mais levantado.
V.
De palavras se faz rica almoeda,
Que deixaõ pobres sempre os compradores, Onde comprais cõ tempo, e cõ a moeda,
As esperanças vãs aos vendedores;
Gastais a vida, o pam, o pano, e a seda,
Desejos só vos daõ como penhores,
Que cada qual por grande preço empenha, A quem, ou gasta o tempo, ou desempenha.
VI.
Ahi onde repousa a esperança,
A sombra da infamia, e da deshonra,
Onde a vosso pezar anda a privança
Taõ alta que os pès tras sobre a honra:
Ahi onde se tira o ferro à lança, Que seu dono levanta, louva, e honra,