Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 29 de 95

Páginas do PDF

Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo XVII

Assi vivendo morre, quando amante;

Assi morrendo vive, quando ausente;

Que se morre, pois pena por distante,

Vive tambem, pois ama, porque sente:

Mas em fim naõ passâra tanto ávante

Nas finesas amor, que fora urgente

Acabar-se na vida, se roubára,

E taõ fino naõ ser, se naõ matára.

 

XVII.

Mas quem diria agora o que sentiste

Nesta, Pedro, de amor menos ventura,

Dos carinhos ausente, que já viste

Brotar melindres, produsir brandûra?

Oh! que dirias, Pedro, quando abriste

Aquelles dous conceitos da ternûra!

Os olhos digo; mas amor ordena

Parte das queixas interpréte a pena.

 

XVIII.

Já no pardo capuz, roupas saudosas

Emmudecida a terra se encobria,

E nos hombros das nuvens tenebrosas

Ataúdes de sombra o tempo erguia,

Consagrando com tochas lachrimosas

Mudas exequias ao defuncto dia,

Dando claros sinaes ao Jovem louro

Em torres de Zaphir os signos de ouro.

 

XIX.

Quando a favor da vida o sentimento

Novos em Pedro reproduz gemidos, Sendo sumilher da alma o novo alento,