Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 27 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo X

Que quem mais almas tem, muito mais sẽte.

 

X.

A solidaõ de Pedro imaginada,

Lhe accende as almas, lhe distilla os peytos, Que nem morrêra Ignez, se retirada,

Naõ sentira distante os seus effeitos:

Que como seja amor, muito apertada,

Se gentil, uniaõ de dous sujeitos;

Quando matar hum delles amor trata,

Se desunir os dous hum só naõ matta.

 

XI.

Assi passaõ da mágoa a ser espanto

Os dous ayos do mimo, os dous Cupìdos, Narciso cada qual do proprio pranto,

Phaetontes em fim de seus gemidos:

Se foraõ gala da bellesa, em quanto

Eraõ gentîs desvelos dos sentidos,

Lastimas ficaõ já da tenra idade,

Culpas de amor, delictos da beldade.

 

XII.

Quaes simples avesinhas, que roubadas

Ás lisonjas de Abril, mimos de Flora,

Dos maternaes alentos apartadas,

Suspira cada qual, cada qual chóra:

As que foraõ do campo idolatradas

Oraculos do Sol, linguas da Auróra,

De si mesmas agora occulta fragoa,

Concebem pena, quando abortaõ magoa.