Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 93 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Lisongeria.

Vivo em continuo descuido

Num, e noutro me embaraço,

Se naõ faço o mal que cuido,

Cuido no mal que naõ faço.

 

Lisongeria.

Nenhuma cousa reprovo,

Ou seja mal dita, ou feita,

Tudo louvo, tudo approvo

Por ser a todos aceita.

 

Interesse.

Costumo de usar cruezas

Com vizinho, e com estranho

Cayo em cem mil baixezas

Sò por tirar qualquer ganho.

 

Zelo indiscreto.

Como a ordem naõ entendo,

Porque me ey de governar,

Tudo quero emmendar,

Mas a mim nunca me emmendo.

 

Mà condicçaõ.

Posto que todos me emmẽdem,

Ninguem faz comigo avença,

Cuido que todos me offendem,

E eu sò sou minha offensa.

 

Afeiçaõ desordenada.