Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 32 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo XXVI

Trophéo da dôr, sangria da bellesa.

 

XXVI.

Ay triste solidaõ! ay pena ingrata!

Quanto menos cruel foras agora,

Se permittindo a magoa, que maltrata,

Naõ roubáras a gloria, que te adóra:

Mas esta dôr naõ fora, que assi mata,

Rigoroso pesár, se assi naõ fora;

Pois naõ se méde o mal de quem suspira, Pelo que tem, senaõ pelo que tira.

 

XXVII.

Mas inda mais avante acompanhada

Desta dôr outra pena já me alcança;

Pois na magoa da perda lamentada

Os alivios me rouba da esperança:

Mas como, se naõ fora eternisada,

Maltratára das glorias a mudança?

Que o pesár sem remedio padecido,

Mata porque hade ser, e porque ha sido.

 

XXVIII.

Nem pódem mitigar esta saudade

Assistencias de amor, porque resiste

Outra nova razaõ da soledade,

Que nas distancias desse amor consiste: Que como aquelle objecto da vontade

Hoje feito impossivel naõ me assiste,

Sendo vinculo amor entre subjeitos,

Naõ tendo extremos, naõ produz effeitos.