Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo XXVI
Trophéo da dôr, sangria da bellesa.
XXVI.
Ay triste solidaõ! ay pena ingrata!
Quanto menos cruel foras agora,
Se permittindo a magoa, que maltrata,
Naõ roubáras a gloria, que te adóra:
Mas esta dôr naõ fora, que assi mata,
Rigoroso pesár, se assi naõ fora;
Pois naõ se méde o mal de quem suspira, Pelo que tem, senaõ pelo que tira.
XXVII.
Mas inda mais avante acompanhada
Desta dôr outra pena já me alcança;
Pois na magoa da perda lamentada
Os alivios me rouba da esperança:
Mas como, se naõ fora eternisada,
Maltratára das glorias a mudança?
Que o pesár sem remedio padecido,
Mata porque hade ser, e porque ha sido.
XXVIII.
Nem pódem mitigar esta saudade
Assistencias de amor, porque resiste
Outra nova razaõ da soledade,
Que nas distancias desse amor consiste: Que como aquelle objecto da vontade
Hoje feito impossivel naõ me assiste,
Sendo vinculo amor entre subjeitos,
Naõ tendo extremos, naõ produz effeitos.