Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo LXVIII
Ay! charas prendas minhas taõ queridas, Reliquias de amor, da alma pedaços;
Ay! como sentireis em mim perdidas
As mimosas delicias de meus braços:
Mas pois naõ póde ser entre homicidas
Lograr, amores meus, vossos abraços,
A Deos, ficai-vos já gostos amados,
A Deos alma, a Deos vida, a Deos cuidados.
LXVIII.
Mais quiséra fallar enternecida,
Mas oh! indigna acçaõ de hum peito forte! Hum tyranno cruel, torpe homicîda,
Nos fios de hum punhal lhe teçe a morte: Inclîna o lacteo collo amortecida,
Avassallada já da infausta sorte,
Exhála a vida o corpo de alabastro,
Feneçe amor com Donna Ignez de Castro.
LXIX.
Qual a branca Açucena, que cortada,
Sente do ferro, ou tempo, a crueldade,
Em seu mesmo candôr amortalhada,
Defunta flor em flor na flor da idade:
Á qual ficaõ sómente de engraçada
Os antigos riscunhos da beldade:
Tal fica a bella Ignez amortecida
Sem gala, luz, sem cor, graça, nem vida.
LXX.
Vós agora, troféos da formosura,
Apparencias vitaes de ramalhete, Colhey as vélas, porque a pouca altûra
Qualquer onda vos mólha o galhardete:
Olhay, que a branca Rosa, flor mais pura Acha, se berços, campas no alegrête:
Attentay léve flor, bellesa vaã,
Que he mais antiga a tarde, que a manhaã.
FIM
da primeyra parte.
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