Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 23 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo LXVIII

Ay! charas prendas minhas taõ queridas, Reliquias de amor, da alma pedaços;

Ay! como sentireis em mim perdidas

As mimosas delicias de meus braços:

Mas pois naõ póde ser entre homicidas

Lograr, amores meus, vossos abraços,

A Deos, ficai-vos já gostos amados,

A Deos alma, a Deos vida, a Deos cuidados.

 

LXVIII.

Mais quiséra fallar enternecida,

Mas oh! indigna acçaõ de hum peito forte! Hum tyranno cruel, torpe homicîda,

Nos fios de hum punhal lhe teçe a morte: Inclîna o lacteo collo amortecida,

Avassallada já da infausta sorte,

Exhála a vida o corpo de alabastro,

Feneçe amor com Donna Ignez de Castro.

 

LXIX.

Qual a branca Açucena, que cortada,

Sente do ferro, ou tempo, a crueldade,

Em seu mesmo candôr amortalhada,

Defunta flor em flor na flor da idade:

Á qual ficaõ sómente de engraçada

Os antigos riscunhos da beldade:

Tal fica a bella Ignez amortecida

Sem gala, luz, sem cor, graça, nem vida.

 

LXX.

Vós agora, troféos da formosura,

Apparencias vitaes de ramalhete, Colhey as vélas, porque a pouca altûra

Qualquer onda vos mólha o galhardete:

Olhay, que a branca Rosa, flor mais pura Acha, se berços, campas no alegrête:

Attentay léve flor, bellesa vaã,

Que he mais antiga a tarde, que a manhaã.

 

FIM

da primeyra parte.

 

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