Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo VII
Procede de ser firme o fundamento:
Por isso vi taõ cedo esta mudança,
Porque as torres que fiz fundei no vento,
E como eu no vento as torres tinha,
O vento mas levou, que mas sostinha.
VII.
Culpa de meu perverso, e vaõ sentido,
Que vendo só mal huma sombra boa,
Mas estimou o mal pelo vestido,
Do que estimou o bem pela pessoa:
Mas posto que me veja hoje perdido,
Em penna que a razaõ tanto magóa,
Como buscar o bem sò a mim convinha,
Do mal que ficou a culpa he minha.
VIII.
Por culpa só morre, e padece,
Quem quer que as armas deu a seu amigo, Bem mostra que seu mal naõ aborrece,
Quem deste mesmo mal ama o perigo;
Pois logo se a razaõ isto conhece,
Justo tormento foy, justo castigo,
Que tudo me levaste o leve vento,
Pois sobre cousas vãas fiz fundamento.
IX.
Sente o cego amador em seus amores,
A paga do serviço ser o engano,
Converterem-se os bens em puras dores, Ser o proveito pouco, muito o damno; Mentirosas lisonjas os louvores,