Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 25 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo IV

Mas a Parca tyranna por vaidade

Solicita bellesas advertida;

Porque dellas talvez se naõ cuidára,

Morre fora huma prenda, e só matára.

 

IV.

Só suspiraõ, só choraõ lastimosas

(Que naõ pára nas queyxas a finesa)

Aquellas, que restaraõ só piedosas

Troyas do amor, reliquias da bellesa:

Aquellas, digo, prendas lachrimosas,

Dous Infantes gentîs, a que naturesa

Deyxou com vida, porque em seu tribûto

Fosse a morte da flor vida do fructo.

 

V.

Qual nos braços da planta mais visinha

Em roupas de rubîm, cama olorosa,

Sentindo huma lanceta em cada espinha, Sangrada no jardim fenece a Rosa:

Consagrando-se flor, quem foy Rainha,

Em vivos holocaustos sanguinosa,

De cujas cinzas restaõ por grinalda

Reliquias de ouro em cófre de esmeralda.

 

VI.

Que pesáres, que penas, que rigores

Amor formáva, cada qual sentia,

Qual nos gemidos soluçando amores,

Em carinhossas magoas confundia:

Qual desmayado no tapiz das flores, Se recosta trophéo da tyrannia,