Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo IV
Mas a Parca tyranna por vaidade
Solicita bellesas advertida;
Porque dellas talvez se naõ cuidára,
Morre fora huma prenda, e só matára.
IV.
Só suspiraõ, só choraõ lastimosas
(Que naõ pára nas queyxas a finesa)
Aquellas, que restaraõ só piedosas
Troyas do amor, reliquias da bellesa:
Aquellas, digo, prendas lachrimosas,
Dous Infantes gentîs, a que naturesa
Deyxou com vida, porque em seu tribûto
Fosse a morte da flor vida do fructo.
V.
Qual nos braços da planta mais visinha
Em roupas de rubîm, cama olorosa,
Sentindo huma lanceta em cada espinha, Sangrada no jardim fenece a Rosa:
Consagrando-se flor, quem foy Rainha,
Em vivos holocaustos sanguinosa,
De cujas cinzas restaõ por grinalda
Reliquias de ouro em cófre de esmeralda.
VI.
Que pesáres, que penas, que rigores
Amor formáva, cada qual sentia,
Qual nos gemidos soluçando amores,
Em carinhossas magoas confundia:
Qual desmayado no tapiz das flores, Se recosta trophéo da tyrannia,