Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 33 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo XXIX

Só deixára de ser eternisada

Esta dor, mas só fora divertida,

Se a memoria da pena imaginada

Naõ passára a ser pena padecida:

Só razão de praser, quando lembrada,

Essa gloria tivera, que he perdida,

Se sendo assi passada na lembrança

Soubéra ser futûra na esperança.

 

XXX.

Nem queixumes de lagrimas sentidas

Alivios pódem ser nesta saudade,

Que sendo partes da alma desunidas,

Saõ causas naturaes da soledade:

Porque quando nos olhos advertidas,

Procuraõ fugitivas liberdade,

Aquella mesma vida, que me alenta,

Tambem nellas partida se me ausenta.

 

XXXI.

Oh quem me déra já ser assistido

Dos penhascos talvez, que o monte cria!

Mas quem naõ tem razoens para sentido, Naõ póde ter nas magoas companhia:

E hum rigor por ausencias padecido,

Com nenhuma presença se alivîa;

Que quem nas ancias, que padece hũ triste, Juntamente naõ pena, naõ lhe assiste.

 

XXXII.