Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 31 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo XXIII

Mas vendo apenas, que o galân querido

Com disfarces de nacar se retira,

Porque se vê das glorias todo ausente,

Languido pasma, cuidadoso sente.

 

XXIII.

Em fim rompe nas queixas amorosas

Agora Pedro, quando as vê sentidas,

Que naõ pódem livrar-se de penosas,

Quando sabem fugir a ser ouvidas:

E só discretas saõ, se rigorosas,

As que menos se presaõ de entendidas;

Que já por isso Pedro se as pertende,

He só porque a si mesmo naõ se entende.

 

XXIV.

Ay! gloria minha, diz, gloria sonhada!

Minha te chamo, quando assi perdida,

Que se naõ tens as veras de lograda,

O desár naõ padeces de esquecida:

Como gloria maltratas, se lembrada?

Como molestas gloria possuida?

Na pósse logras ancias de fallivel,

Na memoria rigores de impossivel.

 

XXV.

Como soube deixar-me assi frustrado

Este rigor, que gloria se habilita,

Quando me fez mayor, que o mesmo Fado, Mayor, que amor, mayor q̃ a mesma dita? Quem me disséra então, que este cuidado Fosse Rosa, que apenas se acredita, Quando se vê nas maõs da naturesa