Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo VII
Porém as vossas poucas tem-se erguîdo Encima deste Céo mais eminente:
E lá movendo estaõ com seu ruido
A Deos, Senhor Supremo, Omnipotente;
E se delle quereis ser muito amados,
Choray, sem descançar, olhos cançados.
VII.
Produzem temporal, terrestre fruto,
As agoas, que os Céos daõ no duro inverno; Porém o vosso choro, sem ser muito,
Produz fruto celeste, e sempiterno:
Nunca de vós o campo esteja enxuto
Chorando o mal antigo, e o mal moderno; Choray, seráõ os males desterrados,
Choray, sem descançar, olhos cançados.
VIII.
As agoas, que vós vedes ir correndo,
Que parece que vaõ de vós fugindo,
Por natureza vaõ ao mar descendo,
As vossas por virtude a Deos subindo,
Humas chegando ao mar, vaõ-se perdendo As outras ante Deos ficaõ assistindo:
E se quereis de Deos ser estimados,
Choray, sem descançar, olhos cançados.
IX.
As agoas que das fontes vaõ manando,
Fazem na terra vil vozes terréstes;
Porém estas, que vós ides chorando
No Céo Empyreo saõ vozes celestes: