Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 16 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo XLV

Que como em soledades só discorro,

Nem conto instantes, porque sẽpre morro.

 

XLV.

E vós Rosas no mimo de huma Aurora

Lograis de vossa adôrno a pompa bella,

Que talvez por firmar vossa melhóra,

Tivéstes no nascer tão boa estrella:

Mas oh! que no pesar, que chóro agora,

Nestes fogosos ays, que o peito anéla,

Escolhe minha estrella em triste forte

Por pena a vida, por lisonja a morte.

 

XLVI.

Vós plantas, que sentis mudavel erro,

Cifrando em cada folha hum pensamento, Se Dezembro lamenta vosso enterro

Abril em flor vos dá dobrado alento:

Mas oh! q̃ em meu sentir, e em meu desterro Eternisa hum rigor meu sentimento;

Pois quer amor na sorte, que me ordena, Se alimente huma pena de outra pena.

 

XLVII.

E tû bruto penhasco inhabitado,

Tosco sepulcro de huma clara fonte,

Es agora de flores matizado,

Idolo de crystal, gala do monte:

Mas oh tyranna dor! que meu cuidado

Hoje lamenta o mal, que chorou honte,

Vendo, que teu terror com bruto aviso

Honte foy Polifêmo, hoje he Narciso.