Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo XLV
Que como em soledades só discorro,
Nem conto instantes, porque sẽpre morro.
XLV.
E vós Rosas no mimo de huma Aurora
Lograis de vossa adôrno a pompa bella,
Que talvez por firmar vossa melhóra,
Tivéstes no nascer tão boa estrella:
Mas oh! que no pesar, que chóro agora,
Nestes fogosos ays, que o peito anéla,
Escolhe minha estrella em triste forte
Por pena a vida, por lisonja a morte.
XLVI.
Vós plantas, que sentis mudavel erro,
Cifrando em cada folha hum pensamento, Se Dezembro lamenta vosso enterro
Abril em flor vos dá dobrado alento:
Mas oh! q̃ em meu sentir, e em meu desterro Eternisa hum rigor meu sentimento;
Pois quer amor na sorte, que me ordena, Se alimente huma pena de outra pena.
XLVII.
E tû bruto penhasco inhabitado,
Tosco sepulcro de huma clara fonte,
Es agora de flores matizado,
Idolo de crystal, gala do monte:
Mas oh tyranna dor! que meu cuidado
Hoje lamenta o mal, que chorou honte,
Vendo, que teu terror com bruto aviso
Honte foy Polifêmo, hoje he Narciso.