Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 3 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo IV

Mas Ignez só, que por penar vivia,

Naufragava em soluços cada instante,

Ignez, aquella Ignez, que amor fazia

Por lhe dobrar as magoas mais constante: Aquella, em cujas graças competia

Ser formosa, discreta, e ser amante,

Em cujas prendas naõ tiveraõ parte

Artificios da industria, invençoẽs da arte.

 

IV.

A que nos dotes da alma taõ possante,

Discreta, grave, terna, e generosa,

Que da mesma bellesa sendo Atlante,

Tinha por menór prenda o ser formosa:

Nos donaires do talhe taõ galante,

Nos alinhos da graça taõ vistosa,

Que topando na culpa de Narciso,

Fora sem culpa seu discreto aviso.

 

V.

Mas qual o passarinho descuidado,

Lisonja mais gentil da tenra idade,

Foy das maõs do menino aprisionado,

Que lhe roubou no laço a liberdade:

Que quando delle mais galanteado,

Exprimenta no mimo a crueldade:

E quando a côr das pennas lhe contenta, Nas que lhe tira, mais lhas accrescenta.

 

VI.

Tal Ignez na manhaã dos ternos annos,

Nas primeyras Auróras da esperança, Deo nos laços de amor doces enganos,