Tartufo, O Pato Selvagem
Tartufo
Não custa, enfim, destruir-se essa inquietação vossa.
De um segredo integral comigo estais segura;
Só no rumor da coisa, o mal se configura.
O escândalo do mundo é o que a ofensa produz,
E pecado não é o que não vem à luz .(pág. 101)
PROF. MONIR: Então, que tal essa?: “Eu não conto para ninguém, fica só entre nós dois. Aquilo que não vem à luz, não é pecado. Então não se preocupe”. Ele acabou de arrumar uma argumentação obviamente falaciosa para que ela não tivesse mais o argumento de dizer que a tal da prova cabal não era pos-sível porque ela ofenderia o céu.
Como Elmira concorda aparentemente, Tartufo, confiante, expressa sua opinião sobre Orgon:
ELMIRA (após ter novamente tossido e batido sobre a mesa)
Bem, forçoso é ceder, vejo-o, inda que o ressinta,
E a submeter me a tudo é mister que eu consinta.
PROF. MONIR: Pronto, ela concordou com a prova cabal.
Por menos, já se vê, não devo eu pretender
Que haja quem se contente e queira se render.
Sem dúvida, o chegar-se a esse ponto é enfadonho,
E a contragosto a tal o assentimento aponho.
Mas já que a reduzir-me a isso há quem me acossa,
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 75
Teimando em nada crer do que dizer se possa.
Se estão a me exigir que eu vá pela tangente,
Forçoso é resolver me e contentar a gente.
Se nesse assentimento alguma ofensa se orça,
Por conta ficará de quem a tal me força,
E não me há de caber em tal a culpa a mim.
PROF. MONIR: Elmira diz assim: “Eu concordo, mas se estiver errado, a culpa é sua, não é minha. O senhor é moralmente responsável por isso”.
TARTUFO
Sim, vai por minha conta, e a coisa em si, assim...
ELMIRA
É obséquio, por favor, irdes espiar sem ruído,
Se não está talvez lá fora o meu marido.
TARTUFO
Por que é que em seu favor cuidado ainda nutris?
É homem de se levar sem mais pelo nariz.
De todo encontro nosso há de fazer farol,
E a ponto o pus de até negar a luz do sol.
PROF. MONIR: Essa é a opinião que Tartufo tem sobre o outro que está ou-vindo debaixo da mesa: [risos] “É um homem de se levar pelo nariz”; “Eu até faço com que ele negue a luz do sol” (ou seja, o Orgon é um sujeito totalmen-te controlado por mim). Será que o Orgon ainda tem alguma dúvida sobre quem é o Tartufo?
76 Professor José Monir Nasser