Tartufo, O Pato Selvagem

José Monir Nasser · Capítulo 62 de 62

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Tartufo, O Pato Selvagem

Gregers

Se você tem razão e se estou errado, a vida então não vale a pena ser vivida.

RELLING

Vale sim! A vida teria muita coisa boa, apesar de tudo, se não fossem esses

credores que vêm bater à porta de pobres gentes como nós, para lhes

apresentarem as suas reclamações de ideal.

GREGERS (com olhar fixo)

Nesse caso estou satisfeito com a resolução que tomei.

RELLING

Não há indiscrição em perguntar lhe o que é que resolveu?

GREGERS (prestes a partir)

Resolvi ser o décimo terceiro à mesa.

RELLING

Ora! Vá cantar noutra freguesia!

 

(Resumo feito por José Monir Nasser, com excertos traduzidos por Vidal de Oli-veira, retirados de “Seis Dramas”, Editora Escala, São Paulo, s.d.)

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 231 PROF. MONIR: Não é a história mais alegre que a gente pudesse ter lido jun-tos. Que coisa terrível, não é? Fundamentalmente esta é uma história que gira em torno da decisão de Gregers de contar o que ele contou. Tendo con-tado para o amigo Hjalmar os fatos que ele julgava verdadeiros, ele gerou uma situação que foi se encadeando, com um final muito negativo. Sobrou alguma coisa boa disso? Não houve a união feliz. Segundo Relling, Hjalmar pretende continuar se enganando, fingindo tudo como sempre fez e não sofrerá muito. E o Gregers, que tinha como objetivo de vida consertar aque-la situação, acabou transformando o que havia em algo muito pior. Afinal o que acontecia antes tinha alguma viabilidade, algum sucesso – mesmo que fosse estabelecida sobre condições falsas, era uma vida. E agora a situação do final da história é medonha, horrorosa. Vocês acham que Ibsen escreveu essa peça para apoiar um sujeito como Gregers? Para defender que alguém tire as ilusões vitais de uma pessoa? Ibsen genialmente contrapõe o tempo todo as duas personagens – há momentos em que você tende a concordar com Gregers, e há momentos em você tende a concordar com Relling.

Alguém aqui acha que o Gregers estava certo?

ALUNOS: [Silêncio.]

PROF. MONIR: É uma questão séria, complicada. Todo o mundo na vida já deve ter passado por situações como essa. Imagine que você saiba alguma coisa sobre a vida de alguém – você deve contar ou não? O que você faz pode surtir um efeito positivo como pode surtir um efeito negativo. O pro-blema essencial de todas as situações morais como essa é que você nunca tem verdadeiramente o domínio de todos os fatos envolvidos. Por mais que você tenha algumas informações sobre a situação, você não tem o domínio

232 Professor José Monir Nasser sobre todos os dados. A nossa certeza sobre a vida é sempre probabilística. Nós não temos condição de ter certeza absoluta a não ser sobre conclusões metafísicas. A única coisa de que podemos ter certeza na vida são aquelas coisas que dependem de autopercepção. Eu tenho certeza de que eu existo e de que estou falando aqui com vocês. Também tenho certeza de coisas de natureza metafísica como, por exemplo, 2 + 2 = 4. Não poderia ser 5 nem mesmo para Deus. O primeiro problema é que você não detém todos os elementos envolvidos. Há elementos fora de seu alcance que podem mudar a situação.

Conheço um sujeito que foi contar para o sobrinho que havia se separado da mulher. O sobrinho demonstrou alívio, dizendo que tinha pena do tio quando o via com aquela mulher. Uma semana depois o tio diz que vol-tou com a mulher. Desde então ele cumprimenta a mulher do tio só com um aceno de cabeça [risos]. São situações complicadas. Falando em termos práticos, não se deve entrar no mérito de brigas entre marido e mulher, de questões emocionais, pois sempre há muito mais problemas do que você pensa que tem. Mas nós temos que lidar com esse assunto mais filosofica-mente, que é o nosso tom aqui.

ALUNA: [Diz que acha que envolve mais uma questão psicológica.] .

PROF. MONIR: Seguramente também tem aspectos psicopatológicos nisso. Mas aqui há uma questão de natureza conceitual anterior a essas questões emocionais. O que se está debatendo aqui nessa peça é o problema da ver-dade – se ela deve ser dita ou não. O primeiro problema grave de Gregers é que ele não tem dúvida se deve dizer ou não a verdade para Hjalmar. Em nenhum momento da história ele pensou assim: “Será que eu deveria con-

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 233 tar?” Ele não tem essa dúvida porque ele é o militante da verdade. Ele não está pensando nas consequências do que vai fazer, não tem capacidade de medir as consequências de seu ato. E essa humildade ele deveria ter tido desde o início.

Se você tem dúvidas sobre as consequências dos seus atos e se o conhe-cimento de toda a situação é improvável, onde fica o bom senso? É muito melhor viver com uma dúvida do que com uma pseudoverdade, porque a pseudoverdade pode ser mais destrutiva do que uma dúvida. E esta me parece ser uma regra básica, fundamental. É preciso que você tenha essa prudência existencial. Gregers não tem isso porque é um tipo radical da verdade; ele tem uma igreja chamada verdade que quer defender. Mas se você pensar com um pouco mais de profundidade, você descobre que o problema de Gregers é outro. Ele impressiona os leitores da peça porque é militante da verdade. As pessoas pensam que Ibsen é um sujeito que faz a crítica dos costumes e de todos os hipócritas, e os que vivem mentiras estão sendo atacados e colocados no seu devido lugar.

Mas, para entender o problema do Gregers, temos que fazer uma compara-ção com O Tartufo. No caso do Tartufo, também havia quem o denunciasse. Orgon era o sujeito manipulado por Tartufo, que era um santarrão. A família inteira de Orgon, com exceção de sua mãe, o avisava que aquilo não estava certo, que ele estava sendo vítima de uma conspiração. No final das contas, Tartufo é desmascarado por uma série de circunstâncias e a família acaba vencendo, destruindo Tartufo. A situação familiar volta à normalidade.

Por que a denúncia é diferente no caso de O Tartufo? O que está sendo de-nunciado no caso de O Tartufo? O Tartufo, que é uma pessoa. E aqui? A situa-

234 Professor José Monir Nasser ção vivida é que está sendo denunciada. Além desta diferença, no que mais diferem as situações da denúncia contra o Tartufo e da denúncia contra a situação vivida em O Pato Selvagem?

ALUNO: O Tartufo está fazendo uma brincadeira, não tem muita fé. É só um interesseiro, meio oportunista. Gregers não é vigarista, ele acredita mesmo naquilo.

PROF. MONIR: Cuidado, porque Gregers não está no papel do Tartufo – ele é o denunciante, equivale à família de Orgon. A família de Orgon denuncia o Tartufo, que é um vigarista, puro e simples, e aqui você tem o Gregers denunciando uma situação. Qual é a diferença entre essas duas denúncias? Tem uma diferença enorme entre essas duas denúncias. A família de Orgon denuncia o Tartufo porque está querendo se defender de uma possível per-da patrimonial, porque o Tartufo ia levar tudo embora. E aqui? O que Gre-gers quer? À primeira vista, a justificativa é a de querer restituir o império da verdade, tirando o pato debaixo da água, que ele irá buscar como o cachor-ro. A mobilização da família do Orgon é defensiva apenas. Já a mobilização de Gregers é do tipo kantiano. O certo é o certo e o errado é errado, não ha-vendo meio termo. Ele tem que restituir a verdade porque é sua obrigação, ou seja, há o imperativo categórico de se fazer isso. Não é uma motivação muito diferente?

Mas vocês não desconfiam de uma segunda motivação, bem concreta? Gre-gers quer se vingar do pai para vingar a mãe. Ele quer destruir o plano que o pai dele fez. O Sr. Werle montou um plano, que embora tenha sido feito para resolver um ato errado, não deixava de ter algum valor. É que usamos sem-pre o raciocínio errado de acharmos que os atos de uma pessoa má têm que

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 235 ser obrigatoriamente maus. Às vezes, quando uma pessoa má faz um ato bom, o ato continua sendo bom. O Sr. Werle arranjou um jeito de conseguir conviver com aquela situação. No final da vida, ele parece estar tentando consertar a situação mais ainda. Há uma espécie de arrependimento, de ati-tude geral de resolver o problema.

ALUNO: O Werle é o Tartufo que deu certo. Ele roubou o dinheiro da mãe, prejudicou o sócio, a mulher...

PROF. MONIR: Ele certamente é uma pessoa má. Fez coisas erradas, no en-tanto tentou consertar as coisas no final. Mas o problema do Gregers é que ele não está querendo na verdade defender a justiça, ele está querendo ape-nas vingar a mãe, cuja morte ele atribui à ação do pai.

Todo o problema de consciência moral é um problema de saber e de não saber alguma coisa. O que caracteriza o problema moral é a falta de saber o que fazer, porque o resto você resolve fácil: Você prefere tomar whisky ou levar uma martelada no dedo? Todas as questões que envolvem aspec-tos estéticos e aspectos de natureza física são fáceis de serem resolvidas. Quem é mais bonita: a Gisele Bűnchen ou a Maria da Conceição Tavares? O Costinha ou o Wanderley Cardoso? Essas coisas não são problemas morais porque mesmo que o seu gosto o incline a escolher o Costinha, não é algo de que você duvide muito; são decisões instantâneas.

O que caracteriza a decisão moral é o fato de que os efeitos da decisão que você toma, seja qual for ela, ocorrem ao longo do tempo – portanto você não tem à primeira vista uma perspectiva precisa das consequências. Quan-do você se defronta com qualquer situação moral, a primeira consideração

236 Professor José Monir Nasser é esta: quais serão as consequências da minha decisão? E é o fato de que você percebe pelo menos em parte as consequências da sua decisão é que faz com que você tenha dificuldade de tomá-la. Porque dessa decisão po-dem advir consequências muito graves. Nosso Gregers não tem consciência moral nenhuma, ele faz da moral uma bandeira, uma plataforma pessoal. Ele é a moral em pessoa andando por aí. Ele é muito parecido com o Dr. Stockmann de O Inimigo do Povo, que é a origem da mente revolucionária. O dr. Stockmann não admite ser contrariado, porque ele é a decisão certa em pessoa, ele é a personalização da moralidade.

Esses tipos justiceiros de Ibsen são todos para nos passar a perna, nos en-ganar – porque não é possível que Ibsen esteja apoiando essa gente – esse Gregers é um monstro. Justamente porque é um sujeito que tem uma visão de moral absoluta é que se ele se transforma num Torquemada24, num exe-cutor de uma política de destruição de todo o mundo que não está dentro dos seus conceitos morais. É esse sujeito que irá produzir todas as tiranias revolucionárias na vida, porque ele acha que aquela verdade tem de ser re-velada a todo o custo, seja qual for o preço. Mas na realidade ele não tem toda a verdade. Nesse caso aqui, vamos conceder que haja veracidade no quadro que Gregers está traçando – que, de fato, aquela situação familiar seja artificial, que estivesse sendo construída em torno de falsidades há dezesseis anos. Vamos aceitar isso. Mesmo assim, é preciso pensar se você 24 Nota da revisora da transcrição: Tomás de Torquemada (1420-1498), “O Grande Inquisi-dor”, foi o inquisidor-geral dos reinos de Castela e Aragão no século XV e confessor da rainha Isabel a Católica. Torquemada é conhecido por sua campanha contra os judeus e muçulmanos convertidos da Espanha. A quantidade de autos-de-fé no mandato de Torquemada como in-quisidor é controversa, mas o número mais aceito é 2.200. Disponível em: https://pt.wikipedia. org/wiki/Tom%C3%A1s_de_Torquemada. Acesso em 28 jul 2015.

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 237 deve ou não fazer o que ele fez. Porque a sua obrigação moral não é fiscali-zar a verdade dos outros, mas é viver a sua vida com verdade. É a única coisa que sobra desta história.

ALUNO: Aquela frase “A verdade vos libertará” é uma coisa pessoal.

PROF. MONIR: É, unicamente. Você não encontrará na Bíblia nenhum mo-mento em que Jesus Cristo se comporta assim como esse Gregers. Há uma coisa chamada caridade que está envolvida nisso, que não pode ser desres-peitada. Jesus Cristo diz para você viver a verdade – mas para você.

O sujeito que está aí para desmantelar as mentiras alheias e produzir a ver-dade nos outros é um tipo extraordinariamente narcisista, de um narcisismo tão profundo e tão sofisticado, que é capaz de fazer do proselitismo a sua atividade existencial – alguém como o Gregers, que não tem mais nenhum plano na vida além de desvelar a mentira. Toda a vez que você tiver que se decidir entre contar e não contar, você precisa entender que o que vai es-tabelecer a legitimidade do seu ato não é ter contado ou não contado, mas é saber por que você contou ou não contou. O que torna Gregers ilegítimo é o fato de que ele só queria destruir o próprio pai. Talvez se ele soubesse de uma situação como essa que não tivesse sido causada pelo seu pai, ele tivesse deixado para lá, porque ninguém consegue passar a vida inteira so-lucionando todos os problemas morais do mundo.

Aliás, como regra básica do cristianismo, você não tem obrigação ne-nhuma de resolver as injustiças do mundo. Só tem obrigação de não fazer nenhuma. Prestem atenção nisso, senão a vida fica impossível.

 

238 Professor José Monir Nasser Se no Tartufo nós nos defrontamos com um tipo revolucionário que é o tipo mentiroso e sem vergonha, que usa de um estratagema discursivo para fa-zer os outros entregarem a ele o poder, vocês estão vendo aqui um outro tipo da mesma pessoa. No fundo eles têm uma ligação: um tipo humano que, indignadíssimo com os males do mundo, faz uma cruzada em favor da verdade na vida dos outros. É esse sujeito que irá produzir um desastre gi-gantesco em seguida, e ocupará o espaço com alguma espécie de interven-ção – intervenção que compete a ele que está munido de boas intenções, munido dos melhores pensamentos a respeito, dos maiores conceitos.

Gregers faz uma militância em torno da verdade que, no fundo, é uma mili-tância em favor de suas pequenas doenças emocionais. Qual foi a vantagem de produzir toda essa confusão? Desestabilizar o que está estável.

ALUNO: A maldade do Gregers foi muito mais maléfica do que os erros do pai?

PROF. MONIR: Sim, porque o pai estava tentando consertar as coisas erradas que havia feito, e Gregers tem aquela atitude do moralista extremado, do militante da verdade, motivado por razões escusas e profundamente im-plícitas que ele não tem coragem de admitir para si mesmo. Ele não se dá conta das verdadeiras intenções que tem. As suas motivações são para ele completamente invisíveis. É um sujeito que está mais doente do que o Hjal-mar; ele é que é o pato selvagem – mas acaba produzindo o efeito contrá-rio. Ele não se dá conta do que é de verdade, porque não tem capacidade de refletir sobre o que faz. Em nenhum momento desta história ele pergunta assim: “Meu Deus, mas será que eu deveria fazer isso?”

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 239 ALUNA: Aluno pergunta sobre o sentido da cegueira.

PROF. MONIR: Ele é um grande escritor, esse Ibsen. Ele faz conosco uma es-pécie de jogo. Fica brincando com a cegueira contra a luz e está nos indu-zindo o tempo todo a cair na armadilha – porque, na aparência da história, Gregers é um crítico da sociedade da época que está produzindo, com a sua atuação corajosa e destemida, uma recuperação da verdade, está destruin-do a mentira existencial das pessoas. É isso que o leitor desavisado vai achar que era para entender dessa história.

Ibsen tem essa cara de ser um escritor que faz a crítica social, como no caso de Nora, a personagem de A Casa de Bonecas, uma mulher tratada como criança pelo marido. É isso que aparentemente é. Aqui no Brasil fizeram dezenas de encenações na década de 1970. Qualquer resenhador iria dizer que se tratava de uma peça feminista – quando na verdade, a Nora, no final da peça, abandona os filhos e vai embora de casa. Não sei se Ibsen que-ria torcer pelo feminismo. Parece que não. Nas outras peças da mesma leva não há nenhuma simpatia pelo feminismo, de modo nenhum. Foi o mundo moderno, com seus vieses e com suas idiossincrasias, que inventou que a genialidade de Ibsen está em ser apoiador das teses politicamente corretas do mundo moderno. Pois a genialidade de Ibsen está justamente no fato de que ele se pergunta se tem o direito de interferir na mentira existencial dos outros. Esse é o problema central aqui. Quando você tem consciência moral, você se faz esta pergunta. Mas o sujeito que está justamente fazendo o proselitismo da moralidade, da verdade indiscutível, esse sujeito é o pri-meiro que não tem consciência moral ele mesmo? Gregers podia imaginar que aquilo não daria certo. Se ele não se perguntou isso, é porque estava altamente autoiludido.

240 Professor José Monir Nasser ALUNA: [Acha que tudo foi premeditado, que Gregers voltou para dar um fim naquilo que o incomodava. Acha que as coisas não aconteceram de uma forma natural, que Gregers conduziu os acontecimentos.]

PROF. MONIR: Isto a gente não sabe, é uma suposição que não está no texto. Ele só fica sabendo que a Gina era mulher do Hjalmar na noite em que eles se reencontraram. Ele estava há dezesseis anos curtindo uma grande raiva porque o pai teria se casado com a mãe por interesse, que teria tido aman-tes, e que por causa disso tudo a mãe teria morrido. Então ele atribui ao pai as causas indiretas da morte da mãe. Depois houve o episódio do velho Ekdal, mas ele não tinha ideia de que o velho tinha estado tão mal. Quando ele volta, a quantidade de informações que ele tem sobre a situação é muito pequena ainda. Ele vai obter todas as informações na noite em que a peça começa. No entanto, a legitimidade de suas intenções é o problema aqui.

Tudo que a gente tem na vida está sempre coberto por uma certa quan-tidade de ignorância. Por mais que tenhamos acesso à realidade, sempre teremos acesso limitado. Por exemplo, vocês não podem dizer que horas são neste relógio porque estou escondendo o visor. A natureza do relógio é impedir que vocês possam ver ao mesmo tempo o fundo e a frente. Uma coisa exclui a outra. Tudo que há na estrutura da realidade tem, portanto, visibilidade desigual. É preciso ter sempre essa percepção para não fazer como esse sujeito que depois teve que engolir o fato de que o casal voltou. Você deve tomar um enorme cuidado com essas coisas e a sua própria cons-ciência moral deve lhe perguntar: “Será que faço ou não?”

Gregers em nenhum momento duvida do seu plano, ao contrário, ele lida com a situação de uma maneira absolutamente peremptória. Ele decide

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 241 que é assim e pronto, como se fosse o maior paladino da justiça do mundo. Esses sujeitos são os mais perigosos. O Tartufo é só um picareta e mentiroso. Se você colocá-lo no conselho da Petrobrás ganhando 80 mil por mês, ele deixará de ser revolucionário automaticamente, porque só queria o dinhei-ro. Essa gente, não. Essa gente quer uma coisa chamada “mundo perfeito”, que é impossível. Toda vez que você quer fazer um mundo perfeito, você precisa reengenheirar os indivíduos que estão nele. E isso é impossível, por-tanto você só produzirá isso com a ruptura da própria possibilidade de vida. Por isso o dr. Relling disse ao Gregers que somos todos doentes.

A natureza humana é de uma precariedade e imperfeição absolutas. Vive-mos uma existência imperfeita. Todo o indivíduo que quer produzir uma realidade perfeita transforma-se num Gregers. Se vocês achavam que Ibsen tinha alguma simpatia por isso, percam as esperanças. Embora esteja aí nas crônicas teatrais – ninguém vai entender o livro, pois as pessoas comprarão a história pelo valor de face, Gregers sendo visto como o sujeito que quer instituir a verdade, a moralidade. No entanto, são os tipos mais perigosos de todos, os que farão os grandes morticínios. Essa é a ideia que está dentro desta história maravilhosa. É tristíssima, mas escrita com grande competên-cia.

 

242 Professor José Monir Nasser Federação das Indústrias do Estado do Paraná - FIEP | Presidente Edson Campagnolo

Serviço Nacional da Indústria Paraná - SENAI | Diretor Regional Senai - PR Serviço Social da Indústria Paraná - SESI | Superintendente do SESI/IEL - PR José Antonio Fares

Assessora Executiva de Assuntos Estratégicos - Sistema FIEP Maria Cristhina de Souza Rocha

Gerente de Cultura - Sistema FIEP

Anna Paula Zétola

Analista Técnico – Cultura - Sistema FIEP

Thaisa Bonato Lourenço

Analista Técnico – Cultura - Sistema FIEP

Kleberr Wlader

Normalização – Cultura - Sistema FIEP

Pandita Marchioro

Conteudista

José Monir Nasser (in memorian)

Revisão de transcrição

Patrícia Nasser

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 243 Revisão Literária e Palestras

Paulo Briguet

Capa e Diagramação

Maria Cristina Pacheco dos Santos Lima

Ilustração Capa

José Monir Nasser

Coordenação Geral

Anna Paula Zétola

Produção Executiva e Prestação de Contas

Luiz Roberto Meira

Assistente de Produção

Gilmar Lima

Assessoria de Imprensa

Rafaela Tasca

Programa Nacional de Apoio à Cultura PRONAC

Ministério da Cultura

 

244 Professor José Monir Nasser

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