Tartufo, O Pato Selvagem

José Monir Nasser · Capítulo 17 de 62

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Tartufo, O Pato Selvagem

Werle

Vejo que há entre nós uma barreira intransponível.

GREGERS (inclinando se com sangue frio)

É também a minha opinião. Por isso pego o meu chapéu e vou me embora.

WERLE

Tu vais? Deixas a casa?

GREGERS

Sim. Por fim achei uma finalidade para a minha vida. (pág. 179)

PROF. MONIR: Essa é uma das frases-chaves da história: “Achei uma finalida-de para a minha vida”. Qual é a finalidade da vida de um sujeito que é um militante moral? É tentar trazer a verdade à tona. Essa expressão “trazer a verdade à tona” é absolutamente adequada para essa história por causa da história do pato, que vocês verão em seguida.

Segundo Ato

A cena muda para o ateliê de fotografia de Hjalmar Ekdal. Gina Ekdal e a filha do casal, Hedvig, uma menina de treze anos, estão sentadas. A mãe costurando e a filha lendo.

Gina censura a filha por estar lendo à noite.

PROF. MONIR: Porque a menina tem um problema de vista. Aí a fraqueza da vista é a metáfora central da obra. A menina tem uma doença, enxerga mal,

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 139 e não devia estar forçando a vista. Imaginem que a leitura noturna era muito mais difícil do que hoje em dia, provavelmente nem havia luz elétrica.

Conversam sobre as despesas da casa. Hedvig aguarda ansiosamente o pai que havia prometido pedir à Senhora Berta Soerby “alguma coisa boa” para ela. Che-ga o velho Ekdal trazendo os novos documentos para copiar. Abre a porta do sótão e “constata que estavam dormindo todos juntos”.

PROF. MONIR: Quem? Não sabemos ainda. Daqui a pouco vocês descobrem.

O velho Ekdal, sem cear, vai para seu quarto e pede para não ser interrompido. Gina, desconfiada de que ele iria beber, pergunta a Hedvig: “Explica me, se pu-deres, onde ele arranjou dinheiro.”20 Chega Hjalmar e quer falar com seu pai. Gina tenta impedi-lo, dizendo que aquela noite ele não queria ver ninguém, mas o velho tenente, vestido com o robe de chambre, sai do quarto fumando cachimbo e pedindo informações sobre a festa. Quando Hjalmar descreve os presentes, o velho ouve e depois, meneando a cabeça, comenta: “Está ouvindo, Gina! Ele es-teve numa reunião onde só havia camaristas, ninguém mais, a não ser camaristas”.

PROF. MONIR: Camaristas são vereadores, stricto sensu. Lato sensu, são polí-ticos em geral (pessoas da Câmara). Não confundir (ou confundir) com ca-marilha.

 

20 Nota do resumidor – Na verdade, a Senhora Soerby, na saída, havia dado ao velho uma garrafa de conhaque. Todo o dinheiro que o velho ganhava era entregue diretamente para Gina.

 

140 Professor José Monir Nasser Hjalmar tira o fraque. Hedvig cobra “as coisas boas” que o pai havia prometido trazer, mas ele havia esquecido e tenta consertar:

PROF. MONIR: Puxa vida, a menina estava esperando que o pai trouxesse da festa uma comida gostosa para ela. Olha só como ele vai consertar isso:

HJALMAR

Palavra! Esqueci me! Mas espera um pouco. Tenho aqui outra coisa para te

dar, Hedvig. (Ele pega a casaca e procura nos bolsos.)

HEDVIG (soltando e batendo com as mãos)

Oh! Mamãe, mamãe!

HJALMAR (puxando uma folha de papel)

Toma, aqui está.

HEDVIG

Isso? É só uma folha de papel...

HJALMAR

É um cardápio, pequena. O cardápio do jantar. Olha: está escrito.

PROF. MONIR: É boa a solução? [Risos.]

HEDVIG

Só tens isto?

 

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