Tartufo, O Pato Selvagem
Hjalmar
É bem possível. Mas eu te peço que me deixes fora de tudo isso. Posso
assegurar-te que, à parte uma melancolia muito natural, eu me sinto tão
bem quanto se possa desejar.
PROF. MONIR: O Hjalmar está dizendo que está bem assim.
GREGERS
É ainda um efeito do veneno. (pág. 204)
PROF. MONIR: Estão vendo? Gregers diz ao amigo que sentir-se bem é um problema da própria doença, que é um defeito. Que ali é que está o proble-ma.
Servido o almoço, chegam Relling e Molvick, que veste preto. Relling reconhece Gregers Werle e comenta: “Ora essa, é o senhor Werle filho! Sim, nós nos engalfinha-mos lá em cima em Heydal. E o senhor veio instalar-se aqui?”
PROF. MONIR: Ficamos sabendo agora que entre Relling e Gregers já havia uma bronca antiga e por coincidência se encontraram novamente.
Relling conta que Molvik havia bebido de novo. À mesa, Relling faz provocações a Gregers. Chega o velho Ekdal trazendo a pele de um coelho que havia matado no sótão. (“Bom dia, senhores. Boa caça hoje. Matei um grande.”)
PROF. MONIR: O velho Ekdal veio do sótão e fala com os presentes como se tivesse vindo de uma caçada no campo. Ele matara um coelho no sótão.
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 161 Passa pelo grupo e vai para seu quarto. Hjalmar diz estar feliz com aquele mo-mento à mesa, mas Gregers Werle não está nada feliz.
GREGERS
Quanto a mim, não gosto de respirar o ar dos pântanos.
RELLING
Dos pântanos?
HJALMAR
Já vais recomeçar!
PROF. MONIR: Vejam que coisa mais indelicada. Dizer na frente da dona da casa: “Eu estou com horror deste cheiro de pântano que tem aqui”. Não é coisa que se diga, mas militantes moralistas não têm constrangimentos des-sa espécie, porque para eles a educação é apenas um verniz social.
ALUNO: [Comenta que o velho Ekdal está sempre passando por algum lugar, chegando de algum lugar, como um estrangeiro.]
PROF. MONIR: É. Ele mora com o filho, fica no seu quarto a maior parte do tempo, quando não está indo para o sótão caçar coelhos, ou vai até a casa do velho Werle apanhar material para cópia... Ele é um pouco móvel, é ver-dade. Mas não sei se há algum significado.
GINA
Eu lhe juro, senhor Werle, que aqui em casa não há maus ares, porque arejo o
apartamento todos os dias que Deus dá.
162 Professor José Monir Nasser PROF. MONIR: É, dona da casa ofendida, não é?
GREGERS (levantando se da mesa)
O mau cheiro a que eu me refiro vocês nunca o conseguirão expulsar.
HJALMAR
O mau cheiro!
GINA
Sim? O que dizes a isto, Ekdal?
RELLING
Desculpe, mas não será por acaso você quem traz esse mau cheiro, lá de cima
das usinas?
PROF. MONIR: Relling já bota Gregers no seu lugar.
GREGERS
É bem coisa sua, isso de chamar mau cheiro ao que eu trago para esta casa.
(pág. 207)
PROF. MONIR: Novamente Gregers está incomodadíssimo com a situação que está vivendo. Porque ele está vendo aquele almoço feliz, e achando que aquela felicidade é baseada numa trama da qual aquela gente não faz a me-nor ideia.
As ironias de Relling e Gregers recomeçam e uma discussão se inicia envolven-do todos, menos Hedvig. Batem à porta da entrada. “O senhor Werle entra e dá um
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 163 passo no quarto. Está com um casaco de peles.” Comunica ter vindo falar com o filho. Pai e filho são deixados sozinhos e começam a conversar:
WERLE
Ontem à noite deixaste escapar algumas insinuações. E, como vieste instalar
se em casa dos Ekdal, sou tentado a crer que tens algum mau desígnio a meu
respeito.
GREGERS
O desígnio que tenho é o de abrir os olhos de Hjalmar Ekdal! É preciso que ele
veja a sua situação tal qual ela é!... Eis tudo.
PROF. MONIR: Estão vendo o militante moral? Ele só tem esse objetivo na vida. Fazer com que o outro saiba da verdade, de toda a verdade em torno da qual a vida do outro está baseada. Ou seja, contra a qual, sem a qual a vida do outro não está baseada. Vocês têm simpatia pelo Gregers? Ele é uma pessoa positiva?
ALUNO: Um importuno.
PROF. MONIR: Vamos ver o que acontece.
WERLE
É essa a finalidade de existência da qual falavas ontem?
GREGERS
Sim. É a única que me deixaste. (pág. 208)
164 Professor José Monir Nasser PROF. MONIR: Olhem aí. É a única que VOCÊ me deixou. Esta frasezinha é a frase central da obra.
Gregers começa a acusar o pai, dizendo que deveria ter agido contra ele, “quan-do armaram aquela armadilha contra o tenente Ekdal”, mas que não havia feito por medo.
PROF. MONIR: Temos certeza de que foi uma armadilha? Não sabemos exa-tamente, porque o autor nos deixa na dúvida sobre o fato que gerou a pri-são do velho Ekdal, mas o jovem transformou isso num fato indiscutível. Ele acha que o pai prejudicou Ekdal de propósito.
O jovem lamenta: “O mal que eu e outros fizemos ao velho Ekdal é irreparável. No que diz respeito a Hjalmar porém eu o posso salvar da mentira e da dissimulação em que ele está envolvido”. O pai o desafia:
WERLE
Acreditas que isso seja uma boa ação?
GREGERS
É a minha firme convicção.
PROF. MONIR: Esta é a pergunta que eu farei para vocês um minuto depois de terminada a leitura, se vocês acham que o que o Gregers está fazendo é uma boa ação. Porque essa é a questão central desta história, que é uma his-tória sobre consciência moral, que debate o problema da decisão moral. To-dos que estão aqui já passaram por essa decisão em sua existência, muitas
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 165 vezes. Será que Gregers deveria ou não contar a Hjalmar qual a verdadeira história sobre seu status?
WERLE
Julgas, talvez, que o fotógrafo Ekdal é homem para te agradecer essa prova
de amizade?
GREGERS
Sim, creio.
WERLE
É o que veremos.
GREGERS
E além disso... se devo suportar a vida, é preciso que eu encontre um remédio
para a minha consciência doente.
PROF. MONIR: Opa, mais uma frase-chave. Gregers está dizendo que para poder continuar vivo precisa encontrar uma solução para a sua própria consciência doente.
ALUNO: Ele sabe de coisas; ele não está supondo, ele está sabendo.
PROF. MONIR: Ele supõe que sabe. Agora exatamente quanto ele sabe, nós não sabemos.
166 Professor José Monir Nasser