Tartufo, O Pato Selvagem
Hjalmar
É exatamente por isso que me abstenho. Não me animo a estrangulá-lo.
Não me animo, por tua causa, Hedvig. Mas sinto, perfeitamente, que eu
devia proceder de outra forma. Eu não deveria tolerar sob o meu teto um ser
qualquer vindo daquelas mãos.
PROF. MONIR: Olha que coisa horrível, isso: “Um ser qualquer vindo daquelas mãos”. Então vocês já devem ter desconfiado de que tem mais coisa aqui do que aparenta, não é?
GINA
Mas tu sabes bem que foi aquele idiota do Petersen que deu o pato ao avô.
HJALMAR (medindo a sala a passos)
Há certos direitos... Como os chamarei? Certos direitos que chamarei os
direitos do ideal... Há certas obrigações às quais um homem não pode fugir
sem diminuir a própria alma.
PROF. MONIR: E aqui agora tem uma maravilhosa conversinha kantiana, que estava faltando para descobrirmos quem estava por trás deste Gregers. Kant achava que os problemas morais não podem ser resolvidos pela experiência humana, por ela ser muito enganadora. Por exemplo, você não pode achar que o agradável/prazeroso contra o desagradável/desprazeroso possa re-solver os problemas de ética humana. Algumas sensações agradáveis são imorais, e algumas sensações desagradáveis são morais. Logo, Kant acha-va que deveria haver uma mediação externa para o problema moral, que é uma mediação a priori – em termos kantianos. Essa mediação externa a prio-ri é o foco central de sua própria filosofia. Kant cria a ideia de que assuntos
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 175 morais, por terem que ser mediados externamente, são assuntos imperati-vos. Kant cria então a ideia do imperativo categórico e do imperativo hipo-tético. O imperativo hipotético é uma ordem que você tem que atender, mas condicionada a outra coisa. Exemplo: “Se você quer emagrecer, não coma mais massa todo o dia”. Se você quer não é uma ordem no sentido absoluto da palavra, porque só vale para quem quer emagrecer. No entanto, há ou-tras ordens que são absolutas, como por exemplo, “Seja honesto” ou “Não diga mentiras” – essas não podem ser condicionadas de modo nenhum. Por esse critério kantiano de que há ordens que não são condicionais, que são os tais imperativos categóricos (que se opõem aos imperativos hipotéticos), que não podem ser desrespeitados. Por essa regra, você não pode mentir nem mesmo para o ladrão que quer saber onde você guardou o dinheiro. Para Kant, os dez mandamentos são imperativos categóricos. Gregers é kan-tiano, sabemos pelas referências que utiliza na sua maneira de argumentar. Ele que botou na cabeça do Hjalmar esta ideia de direitos do ideal, que é o imperativo categórico de Kant. É assim: “Não matarás”. Então você se recusa a ir para a guerra, porque não matar é absoluto. Portanto se vierem matar sua família, você não fará nada. Obedecer a uma regra dessas, nesse grau de subserviência, é uma monstruosidade de um tamanho indescritível, mas é mais ou menos isso o que gera a filosofia de Kant, como consequência dela própria. Toda a filosofia por trás de Gregers é uma filosofia kantiana – a ideia de que tem que revelar as coisas independentemente de suas consequên-cias é uma aplicação do imperativo categórico de Kant. Eu acho que Kant não foi tão longe assim, porque ele reservou os imperativos categóricos para determinados pontos. Agora “Não mentirás” seguramente estava entre os imperativos categóricos de Kant.
176 Professor José Monir Nasser
HEDVIG (caminhando atrás dele)
Mas pensa, papai, o pato, o pobre pato selvagem... (págs. 211-212)
Hjalmar pede para a filha ir dar seu passeio diário. Ela concorda com a condição de seu pai não fazer mal ao pato na sua ausência. Depois que a menina sai, Hjal-mar diz à mulher que a partir do dia seguinte iria conferir as entradas de dinheiro da casa 21: “Parece me que o dinheiro dura mais tempo nas tuas mãos”.
PROF. MONIR: Por que é que ele está falando isso? Porque está desconfiado de que o velho Werle esteja financiando a família dele sem que ele saiba. Enquanto ele cuida da fotografia, sua mulher faz a gestão econômica da casa. Agora ele quer saber se é o Werle que está pagando mesmo – ele está com o seu orgulho ferido, pois Gregers foi dizer que toda a sua vida era uma farsa, uma invenção do velho Werle para produzir uma compensação pelos acontecimentos anteriores.
Em seguida faz insinuações sobre a remuneração do pai dele copiando para Werle. Hjalmar quer saber quanto seu pai realmente ganha:
GINA
Varia tanto... Ele recebe mais ou menos o que nós gastamos com ele, e além
disso um pouco de dinheiro que ele guarda.
PROF. MONIR: Quem guarda é ela, uma espécie de economia que ela faz para o velho.
21 Nota do resumidor – Era Gina que administrava a casa, enquanto Hjalmar trabalhava como fotógrafo e se dedicava à “invenção”.
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