Tartufo, O Pato Selvagem

José Monir Nasser · Capítulo 12 de 62

Páginas do PDF

Tartufo, O Pato Selvagem

Resumo da Narrativa

Otto Maria Carpeaux diz que O Pato Selvagem (Vildanen), que estreou em 11 de novembro de 1884, é a peça mais profunda do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen e que a caracterização das personagens “atinge alturas shakespearianas”.

PROF. MONIR: Vai aí enorme exagero, porque não se pode comparar Shakes-peare com Ibsen. Shakespeare é de um tempo em que a linguagem simbó-lica era muito mais forte – é um autor metafísico. Mas não é o caso de Piran-dello, não é o caso de Ibsen, não é o caso de Strindberg, de nenhum desses grandes dramaturgos modernos. Portanto Ibsen não tem comparabilidade com Shakespeare – o grau de profundidade é muito diferente.

Pode parecer exagerado, mas este elogio, vindo de quem vem, não é de se desprezar; de fato, O Pato Selvagem é uma peça extraordinária e perturbadora como poucas. O drama pertence à série “realista”, que começa com Os Pilares da Sociedade (Samfundet Stotter), em 1877. Uma das oito peças que notabilizariam Ibsen por seu “modernismo”, O Pato Selvagem é na verdade, obra de profunda autocrítica, como aliás todas as outras em que o autor parece estar exigindo moralidade.

PROF. MONIR: Toda vez que você vê o Ibsen remetendo a alguma causa so-cial, a primeira pergunta a se fazer é a seguinte: “De que aspecto da própria vida Ibsen está falando?” Embora pareça ser um autor pedagógico que tem por objetivo ensinar a sociedade sobre coisas ligadas à moral, Ibsen está sempre tendo uma atitude pessoal. Vocês se lembram do Dr. Stockmann, de O Inimigo do Povo? Nós aqui acabamos concluindo que o Dr. Stockmann tinha problemas muito graves que advinham daquela atitude moralista que

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 119 tinha na defesa da limpeza das águas da estância onde ele morava. A chave do enigma é esta: nunca julgar que Ibsen possa estar fazendo campanhas sociais como faria um autor propagandista moderno, como Brecht, por exemplo. Brecht é um panfletário; Ibsen não é de modo nenhum panfletário – embora muitas vezes pareça que ele está fazendo isso. Ele faz isso para ta-pear você, porque é um dramaturgo de primeira e sabe conduzir a situação para onde bem entende. Mas há uma prova de que ele não é assim. Aí está escrita a confissão de Ibsen:

Num dos seus poemas, Ibsen teria entregado a chave do enigma:

AT LEVE ER KRIG MED TROLTE

I HJERTETS OG HJERNENS HVÄLV;

AT DIGTE – DET ER AT HOLDE

DOMMEDAG OVER SIG SELV 15

PROF. MONIR: Ibsen fez um pouquinho de poesia; a poesia não é grande coisa. Esses dois versinhos de Ibsen nos dão mais ou menos a ideia do que ele pensa sobre sua própria arte. Antes de ser panfletário, é alguém que está falando de alguma coisa mais profunda do que uma denúncia social. A Casa de Bonecas não é para denunciar a condição da mulher, de modo nenhum. Você tem sempre muito mais sob as aparências das coisas que Ibsen escreve – pelo menos nessas oito peças ditas realistas. As peças anteriores são peças históricas, o tipo de teatro com base folclórica que se escrevia no século XIX. A partir de Os Pilares da Sociedade até Solness, o Construtor tudo tem a aparência de denúncia social. Cuidem porque Ibsen não é isso de modo ne-15 Nota do resumidor – Tradução de Otto Maria Carpeaux: “Vida significa luta com os fantas-mas no próprio cérebro e coração; poesia significa julgar-se a si mesmo.”

120 Professor José Monir Nasser nhum, apesar de que noventa e nove por cento de seus comentaristas irão achar que é isso porque não se deram o trabalho de ler direito o livro. Mas isso é comum, e esse problema não vamos resolver aqui.

O teatro de Ibsen é poderosíssimo. Carpeaux diz dele: “Ibsen é um grande poeta”.

PROF. MONIR: Poeta no sentido de que o teatro e a poesia sempre estiveram interligados durante a história da literatura; é só modernamente que se faz teatro em linguagem coloquial. Durante toda a história do teatro, até me-ados do século XX, o teatro era rimado como se fosse poesia. Shakespeare é rimado na maior parte do tempo. O teatro de Molière é completamente rimado. Quanto ao teatro moderno brasileiro, metade é rimado e metade não é. João Cabral de Melo Neto e Ariano Suassuna são rimados. Nelson Rodrigues não, já fala coloquialmente. É claro que todo o teatro moderno muito recente, depois da II Guerra Mundial, usa linguagem coloquial, mas não era incomum naquela época chamar-se um dramaturgo de poeta. Fazia parte da fórmula.

“Além disso, é de uma habilidade teatral quase diabólica. Nem em Sófocles nem em Shakespeare há nada que se possa comparar à infalibilidade da composição drama-túrgica de Kongsemnerme (Os Pretendentes à Coroa) e Espectros”.

PROF. MONIR: Os Pretendentes à Coroa é um livro anterior à fase realista.

O Pato Selvagem é, na verdade, uma tragédia, quase no sentido grego da palavra, construída a partir de elementos retirados da banalidade da existência. George Bernard Shaw considerou a peça “uma tragédia profunda” que, no entanto, pro-

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 121 duziu gargalhadas “como se fosse uma comédia”. Rainer Maria Rilke disse da peça: “Alguma coisa grande, profunda, essencial”.

A ação passa se possivelmente em Oslo,

PROF. MONIR: Embora seja uma suposição, não há indicação disso.

na casa de um burguês endinheirado, que dá uma festa em homenagem a seu filho Gregers, que voltava das usinas da família em Heydal.

PROF. MONIR: As personagens principais desta história são Gregers e seu amigo Hjalmar, além do pato. A história é assim: João Werle é um capitalis-ta industrial que tem aparentemente um único filho chamado Gregers que está exilado, não no sentido negativo da palavra, mas cuidando de umas usinas em Heidel, uma cidade ao norte de Oslo, naquela época Cristiânia. Gregers volta para casa, tendo passado dezessete anos sem aparecer, cui-dando dos negócios da família. Ele tem um amigo de infância chamado Hjalmar, a quem aconteceu uma desventura muito grande ligada ao pai, que havia sido sócio do velho Werle. Hjalmar, que está numa condição social inferior, é convidado para a festa de recepção de Gregers.

Primeiro Ato

Estamos possivelmente em Cristiânia16 , na residência abastada do industrial João Werle. Da sala de jantar ouvem se conversas e risos. No gabinete de traba-lho do senhor Werle, dois criados, Petersen e Jensen, comentam a movimenta-

16 Nota do resumidor – Cristiânia é o nome antigo de Oslo.

 

122 Professor José Monir Nasser ção na casa: “Ouviste, Jensen? Não é que o velho fez um discurso em honra à senhora Soerby?17”

O jantar era em homenagem a Gregers Werle, filho do industrial, que havia che-gado no dia anterior das usinas de Heydal. Outro criado entra na sala anuncian-do a chegada de um visitante. Era o senhor Ekdal, trajando uma “sobrecasaca surrada, de gola alta” e trazendo sob o braço um pacote de papel cinzento.

PROF. MONIR: O velho Ekdal é pai de Hjalmar, que estava na festa. Esse ve-lhinho havia sido sócio do Sr. Werle há uns dezesseis anos. Agora ele humil-demente presta serviços ao antigo sócio e entrou na casa pela porta dos fundos para apanhar um material que copiava. Na época só havia a cópia manual.

O velho pede a Petersen para ir aos escritórios conversar com o tesoureiro Gra-berg, apesar de o expediente do escritório já ter sido encerrado havia mais de uma hora. O criado concede, mas adverte o a sair pela outra porta, “porque temos visitas”.

PROF. MONIR: Ele é tratado como uma pessoa subalterna.

Depois que o velho passa, os mordomos comentam:

JENSEN

É um empregado dos escritórios?

 

17 Nota do resumidor – Em norueguês Sŏrby.

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 123