Tartufo, O Pato Selvagem
Gregers
E, se não me engano, também a pata.
HJALMAR
É possível que ele arraste a pata um pouquinho.
HEDVIG
Foi nesta pata que o cão mordeu.
HJALMAR
A não ser isso, ele não tem nada. Na verdade é extraordinário, quando se
pensa que ele recebeu uma carga de chumbo no corpo e que o cão o teve
seguro nos dentes.
GREGERS (com um olhar para Hedvig)
E que ele esteve tanto tempo no fundo dos mares...
PROF. MONIR: É interessante que todas as indicações são de mar, e não de rio. Reparem que é o Gregers quem faz esse comentário muito sutil, dizen-do que o pato esteve muito tempo escondido – o pato que Gregers caçou e está louco para tirar do fundo dos mares. Qual é o pato que Gregers quer trazer à luz, à superfície? A verdadeira história de como Gina se tornou mu-lher do Hjalmar.
A gente lendo assim é muito mais fácil de entender, não é? Mas numa peça de verdade, em que as coisas vão no tempo real, fica mais difícil. Ler teatro é muito mais fácil do que assistir teatro. Ionesco dizia que nunca ia ao teatro, apesar de ser um dos maiores teatrólogos do século XX.
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HEDVIG (sorrindo)
Pois é.
GINA (junto à mesa)
Esse maldito pato! Não é por falar, mas ele nos traz atrapalhações. É um
verdadeiro calvário. (págs. 201-202)
PROF. MONIR: E essa frase agora! Qual é a diferença entre a Gina e o Hjalmar com relação à situação verdadeira daquele matrimônio?
ALUNA: Ela sabe, ele não.
PROF. MONIR: Porque ela teria sido amante do patrão, ela teria entendido que aquele casamento era para resolver a situação dela. Por isto o que está escondido a incomoda de alguma maneira, mas incomoda por quê? Porque ela sente alguma culpa por isso.
Hjalmar conta a Gregers seus planos, por meio de uma invenção ligada à foto-grafia, para salvar a reputação do velho, “cobrindo o nome do velho de glória e de honrarias”. Os amigos conversam.
GREGERS
É então esta a finalidade de tua existência?
HJALMAR
Quero salvar o náufrago! Sim, ele naufragou, apenas a tempestade se
desencadeou sobre a sua cabeça. Desde que começaram aqueles terríveis
inquéritos, ele se tornou outro homem. Vês aquela pistola que está ali, a
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mesma com que matamos coelhos? Ela desempenhou um papel na tragédia
da família Ekdal.
GREGERS
A pistola? Realmente?
HJALMAR
Quando a sentença foi proferida, quando ele ia ser levado para a prisão,
pegou da pistola...
GREGERS
Queria?...
HJALMAR
Sim, mas não teve coragem. Foi covarde. A sua alma já estava enfraquecida,
desvairada. Compreendes isso, não? Ele, um militar, um homem que matara
nove ursos, descendente de dois tenentes coronéis... sim... um depois do outro,
naturalmente... compreendes isso, Gregers?
GREGERS
Compreendo perfeitamente.
HJALMAR
Pois, eu não. E aí intervém a pistola outra vez na história da nossa família.
Quando lhe vestiram a roupa parda, e o encarceraram... oh! que época
pavorosa para mim!... Os estores das minhas duas janelas estavam abaixados.
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 157 PROF. MONIR: “Estores” são cortinas que levantam e abaixam.
Ao olhar para fora eu via o sol brilhar como de costume. Não compreendia
mais nada. Via as pessoas na rua rirem e conversarem de coisas indiferentes.
Não compreendia mais nada. Parecia-me que tudo o que existe deveria parar
como durante um eclipse. (pág. 203)
Hjalmar confessa que havia pensado em suicídio quando da condenação do pai, mas havia desistido: “No momento decisivo, triunfei sobre mim mesmo. Conti-nuei a viver. Mas, acredite me: é preciso ter coragem para escolher a vida nessas cir-cunstâncias”. Gregers analisa o amigo:
GREGERS
Sabes, meu caro Hjalmar, que, a meu ver, há em ti qualquer coisa do pato
selvagem?
PROF. MONIR: Está aí o Gregers fazendo uma análise psicológica do seu ami-go Hjalmar, dizendo que ele tem alguma coisa do pato selvagem. Neste sen-tido, o pato selvagem está relacionado ao ato de esconder alguém, à ideia de criar um segredo.
HJALMAR
Do pato selvagem?Que queres dizer com isso?
GREGERS
Tu mergulhaste até o fundo e te seguras nos sargaços.
158 Professor José Monir Nasser PROF. MONIR: Qual é o sentido desta frase aqui?: “Tu vives na mentira”. Do mesmo modo que o pato vive aquela situação artificial de se esconder na profundidade do mar para esperar que seus inimigos desapareçam, Hjalmar também viveria escondido da verdade que Gregers decidiu botar a limpo. Hjalmar é o pato escondido, agarrado no mato para ver se consegue sobre-viver e Gregers é o cachorro que vai arrancá-lo do esconderijo à força.
ALUNO: Esse mar aqui não tem a ver com caos, não?
PROF. MONIR: É muito difícil, porque a simbologia dessas peças modernas é muito rasa. As peças de Shakespeare nos levam a alturas irrespiráveis. Aqui você não tem essa mesma possibilidade. Embora Ibsen seja um dos drama-turgos modernos que chegou mais próximo da tragédia no sentido antigo da palavra, não me parece que exista aqui com clareza esta simbologia. Até cogitei, mas não encontrei muita força nisso não.
HJALMAR
Estás pensando talvez, nesse golpe quase mortal que nos feriu na asa, a meu
pai e a mim?
GREGERS
Não é exatamente isso. Não quero dizer que tivesses ficado estropiado. Mas
caíste num charco envenenado, Hjalmar; contraíste uma doença latente e
mergulhaste para morrer na obscuridade.
PROF. MONIR: Olha que coisa terrível para se dizer para o outro. A conversa do Gregers é uma conversa de militante moral, aqueles sujeitos que fazem
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 159 discurso nas praças contra a imoralidade do mundo, pastores protestantes gritando contra os pecadores... é um discurso dessa natureza.
HJALMAR
Morrer na obscuridade! Eu? Ora, Gregers, não me digas um absurdo desse!
GREGERS
Acalma-te. Eu saberei te pescar de novo, porque, desde ontem, tenho, eu
também, uma finalidade na existência.
PROF. MONIR: Está aqui confirmado que o Gregers resolveu salvar a existên-cia do Hjalmar. Ele decidiu que pela ação restauradora da verdade ele iria salvar o amigo, prisioneiro numa espécie de mar de mentiras. Gregers, como bom cão caçador de patos, vai arrancar o sujeito lá de baixo. Esta é a visão do Gregers. Todo o mundo que lê Ibsen vê o Ibsen como se fosse o Gre-gers, porque as pessoas não prestam atenção no que leem e não entendem, tomando a obra pelo valor de face. No teatro, você não tem tempo para prestar atenção, pois a peça vai andando e você não pode mandar o ator voltar um pouco porque não entendeu um trecho. Você se contenta com o que tem. Quando você sai do teatro, você pensa: “Olha, se houvessem mais Gregers nesse mundo, ele seria melhor, porque ninguém é tão importante quanto um sujeito como esse, cuja vida é voltada para caçar a mentira”. Ele tem um potencial de convencimento enorme. Um leitor ou ouvinte comum fica altamente convencido pelo Gregers. Reparem como ele vai melhorar o seu desempenho mais ainda.
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