Tartufo, O Pato Selvagem
Mariana
O amor que lhe outorgais em nada há de afligir-me,
Mostrai o ao mundo, doai lhe todo o vosso bem:
E, se isso não bastar, juntai lhe o meu também.
Tudo vos abandono, e como coisa à toa:
Mas, pelo amor de Deus, excluí minha pessoa.
Num convento deixai que sob austero véu
Use a vida infeliz que me outorgou o céu. (pág. 90)
Orgon está irredutível: “Quanto mais nojo esse himeneu te traz, tanto mais ocasião de mérito terás”.
PROF. MONIR: Olhem que bacana essa, hein? [Risos] Esse casamento como o Tartufo passou a ser uma coisa maravilhosa, sob o ponto de vista do Orgon, porque como ela tem nojo do marido, conviver como o marido será uma espécie de purgação, de esforço cristão de melhoramento...
Cleanto e Elmira tentam intervir, mas Orgon os rejeita. Elmira propõe ao marido testar Tartufo: “E se a vosso olhar em cheio eu o expusesse à luz?” Meio a contragosto, Orgon aceita o desafio.
Cena IV
Elmira pede ao marido que fique debaixo da mesa e escute a conversa que ela teria com Tartufo. Orgon concorda de má vontade: “Confesso que é mostrar complacência incomum. Mas devo ver como é que saireis da empresa” e se esconde.
68 Professor José Monir Nasser Cena V
Chega Tartufo, convocado por Elmira, que se justifica ao santarrão, dizendo que não havia tido tempo de impedir a denúncia de Damis. Recomeça a conversa entre os dois:
PROF. MONIR: Aquela conversa romântica que havia sido enterrada quando o Damis interrompeu, dizendo que ia denunciar tudo ao pai.
ELMIRA
Há que vos revelar segredos favoráveis.
Mas, para calma mais, cerre-se a porta antes,
E vinde após me ouvir assuntos importantes.
(Tartufo vai fechar a porta e volta)
Escândalo do teor daquele que antes houve,
Não nos convém, e não será o que se louve.
Disfarcei da surpresa o choque a muito custo.
Damis me influiu por vós na hora um tremendo susto,
E vistes a que ponto eu me esforcei, na mira
De lhe romper o intuito e de acalmar-lhe a ira.
Tão perturbada vi-me, isso sim, com aquilo,
Que a ideia não me veio de em tempo desmenti-lo.
Mas por tal é que deu mais certo ainda o ocorrido,
E as coisas melhor ainda estão com meu marido.
A estima em que vos tem dissipou a tormenta,
E contra vós suspeita alguma já fomenta.
Por melhor desafiar um juízo discordante,
Nos quer ver, a ambos nós, juntos a todo instante.
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 69
E eis por que, sem temer do mundo a adversa voz,
Posso ver me encerrada aqui convosco a sós,
E vos abrir uma alma assim, de ponta a ponta,
A acatar vosso ardor talvez por demais pronta.
PROF. MONIR: Ela está dizendo para ele que reconsiderou os sentimentos que ela tinha por ele.
TARTUFO
É de estranhar o que ouço, e custa algo admiti-lo;
Quando antes vos ouvi, era outro vosso estilo. (págs. 96-97)
PROF. MONIR: Tartufo está dizendo agora que ela mudou, que está agora mais simpática com relação a ele.
Elmira continua sua argumentação, atribuindo sua reação anterior à natureza feminina.
ELMIRA
Sempre o nosso pudor combate em tais momentos,
O que já nos influem mais ternos sentimentos.
PROF. MONIR: Ela está dizendo que todas as vezes que as mulheres se apai-xonam, ficam com pudor, e por isso ela teve aquela reação inicial contrária.
ELMIRA
Por mais que impere o ardor que o coração nos doma,
Ao confessá-lo, em nós, sempre algum pejo assoma.
70 Professor José Monir Nasser PROF. MONIR: “Pejo” significa vergonha.
Resiste-se antes, mas pelo jeito se entende
Que se quer demonstrar que o coração se rende.
Que é nossa honra que opõe à nossa boca escudo,
E que recusas tais, enfim, prometem tudo.
Dessa admissão será assaz livre o teor,
E não estou poupando em tal o meu pudor.
Mas já que a vós se expôs tudo o que agora ouvis,
Esforçar-me-ia tanto em silenciar Damis?
Teria eu tanto tempo, e com tanta doçura,
De vosso coração escutado a abertura?
E a oferta encararia, então, sob essa face,
Se a voz, já, da virtude, em mim não abafasse?
PROF. MONIR: Ou seja, a voz da virtude nela já está se abafando, ela já não está tão certa de poder conter os seus sentimentos.
ELMIRA
E, quando lá empenhei tão grande esforço meu
Para vos dissuadir daquele outro himeneu,
Que vos podia dar tal instância a entender,
A não ser que algum preito estão a vos render,
E o temor que talvez a projetada boda
Cindisse uma afeição que a gente almeja toda? (págs. 96-97)
PROF. MONIR: Ela está aqui sugerindo que está interessada nele.
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 71 Espertamente, Tartufo exige uma demonstração real daquela “afeição”:
PROF. MONIR: A conversa é bem erótica para a época. Esta peça aqui era encenada no gabinete do rei... Racine e Corneille fariam coisas muito mais sutis. Aqui há sempre um certo deboche.
TARTUFO
Doçura extrema em nós, senhora, se derrama,
A ouvirmos ditos tais de uma boca que se ama.
E em meus sentidos põe seu mel, em sorvo fundo,
A fluir suavidade inédita no mundo.
É meu supremo afã eu ser o que vos praz,
E beatitude infinda esse auspício me traz.
Meu coração, porém, vos roga a liberdade
De algo ainda duvidar de sua felicidade.
Poderá aí pensar que um ardil me confronta
Que me leve a romper o himeneu que se apronta;
E, para falar franco, esse meu coração
Não poderá se fiar em tão suave oração,
Se algo dessa bondade a que meu ser aspira,
Do que me expõe, penhor cabal não me confira,
PROF. MONIR: Ele está pedindo que ela lhe ofereça um penhor cabal, isto é, um compromisso sem nenhuma dúvida, uma garantia real de que ela está interessada nele. Acho que podemos imaginar o que ele quer que ela dê para ele, para que ele possa acreditar na conversa dela.
72 Professor José Monir Nasser
E não me implante na alma a fé constante, assim,
Do encantador favor que demonstrais por mim.
ELMIRA (depois de tossir para advertir seu marido)
Céus! com tal rapidez quereis abrir caminho,
E de um peito esgotar de vez todo o carinho?
Só a custo é que se faz uma admissão tão doce,
Mas como se o bastante essa admissão não fosse,
Por mais que se disser, não vos satisfaremos
Se o ardor não for levado aos favores extremos? (pág. 98)
Tartufo insiste em que “nada (há) de dar crença, encantadora dama, sem que uma prova real persuada a (sua) flama”. Ela reage: “Céus! esse vosso amor, senhor, como é tirânico!” e completa: “Mas como consentir àquilo que almejais, sem ofender o céu do qual sempre falais?”
PROF. MONIR: O último recurso que ela tem é dizer: “Como é que eu posso dar essa prova sem ofender o céu? Afinal você fala do céu o tempo todo...” E aqui Tartufo, numa genial passagem literária, diz de fato quem ele é.
Tartufo dá então uma aula de cinismo:
TARTUFO
Se a tal se opõe tão só da ofensa ao céu o susto,
Garanto vos livrar do obstáculo sem custo.
Cedei ao gozo, sem que o temor vos moleste.
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 73