Tartufo, O Pato Selvagem

José Monir Nasser · Capítulo 31 de 62

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Tartufo, O Pato Selvagem

Gina

Tu te terias casado comigo assim mesmo?

HJALMAR

Como podes supor isso!?

GINA

Aí está por que não me animei a dizer nada. Eu tinha tanto amor por ti, tu

bem sabes. E além disso eu não podia fazer a minha própria desgraça.

HJALMAR (caminhando pelo quarto)

E é essa a mãe da minha pequena Hedvig! E saber que tudo o que me cerca...

(Dá um pontapé numa cadeira.) Todo o meu lar, eu o devo a esse homem!...

Oh! que belo sedutor esse Sr. Werle!

GINA

Estás arrependido dos quatorze ou quinze anos que vivemos juntos?

HJALMAR (pondo se em frente a ela)

Dize-me, não gemeste todos os dias, todos os minutos, sobre essa trama de

mentiras que teceste em torno de mim, como uma aranha? Responde-me!

Não viveste sempre torturada de remorsos e de angústias?

GINA

Ah! meu querido Ekdal... Francamente: eu tive bastante que fazer só de pensar

na casa e na vida de todos os dias. (págs. 213-214)

 

180 Professor José Monir Nasser Gina pede a ele que reflita no que teria sido a vida dele sem “uma mulher como ela” e o desafia: “É que te metias por quanto mau caminho havia no tempo em que me encontraste. Não podes negar isso”.

PROF. MONIR: A esta altura é possível ter uma impressão sobre Hjalmar. Ele é um sujeito meio perdido, e esse casamento, seja lá feito com que grau de conveniência para outros, foi uma maneira de lhe dar uma existência estável – é isso que Gina disse para ele.

GINA

Está direito, está bem, não digo que não. Não vou remexer nisso tudo agora.

Tu te tornaste um homem tão bom assim que tiveste uma casa e família.

Era tão agradável e tão sossegado em casa agora. E, além disso, eu e Hedvig

íamos poder dentro de pouco tempo nos comprar uns vestidos e umas coisas

boas...

HJALMAR

Chafurdadas na mentira, sim!

GINA

Oh! e logo agora havia esse horrível sujeito de meter nariz aqui!

HJALMAR

Eu também me sentia bem no meu lar... E não era mais do que uma ilusão...

De onde me virá agora a força de que preciso para trazer a minha descoberta

para o terreno das realidades? Ela morrerá talvez comigo, e nesse caso, Gina,

será o teu passado quem a terá matado.

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 181

GINA (prestes a chorar)

Como podes falar assim, Ekdal... Eu que toda a minha vida só quis o teu bem!

HJALMAR

Sim, eu pergunto: que será feito agora dos sonhos concebidos pelo pai de

família? Quando eu estava ali, deitado no sofá, pensando na descoberta, eu

bem que tinha o pressentimento de que ela absorveria as minhas últimas

forças. Eu sentia que o dia em que a patente de invenção me fosse entregue,

esse dia seria também o da despedida. E o meu sonho era que tu vivesses

depois de mim, na abastança, que se honrasse em ti a viúva do inventor

falecido. (pág. 214)

Chega Gregers e pergunta ao amigo de infância se “ainda não está feito?” Hjalmar diz que está feito e que havia vivido “a hora mais amarga da (sua) vida”.

PROF. MONIR: Agora vem o Gregers saber se Hjalmar já havia aberto o jogo, se já havia cobrado uma explicação da Gina. Vocês não acham que tem al-guma coisa errada com esse Gregers?

GREGERS

Mas também a mais pura, não é?

HJALMAR

Enfim por agora está acabado.

GINA

Que Deus lhe perdoe, Sr. Werle.

 

182 Professor José Monir Nasser

GREGERS (com um profundo assombro.)

Não compreendo isso.

HJALMAR

O que é que não compreendes?

GREGERS

Essa grande liquidação devia servir de ponto de partida para uma nova

existência, para uma vida. Para uma comunhão baseada na verdade,

libertada totalmente da mentira.

PROF. MONIR: Então é isso que o Gregers achou que ia acontecer? Ele está dizendo que falou aquilo tudo, que puxou o pato debaixo da água justa-mente para eles recomeçarem certo agora.

HJALMAR

Eu sei, eu sei perfeitamente.

GREGERS

Eu estava tão intimamente persuadido de que à minha entrada uma luz de

transfiguração iluminando o esposo e a esposa me deslumbraria! E eis que,

diante de mim tudo está taciturno, sombrio, triste.

PROF. MONIR: Deu tudo errado, não é? E pode ficar pior ainda.

GINA

Bem, bem. (Tira a pantalha da lâmpada.)

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 183 PROF. MONIR: A pantalha é a parte do abajur que abate a luz, a parte que você remove. A Gina tira a pantalha da lâmpada – aumentou a quantidade de luz.

GREGERS

A senhora não me quer compreender, Sra. Ekdal. Mas tu, Hjalmar? Esta grande

liquidação deveria ter te iniciado em pontos de vista mais elevados.

HJALMAR

Sim, naturalmente... Isto é, até certo ponto.

PROF. MONIR: O Hjalmar não está muito elevado não, ao que parece.

GREGERS

Porque nada no mundo pode ser comparado à alegria de perdoar à pecadora

e de a elevar até a si próprio pelo amor.

PROF. MONIR: Não parece o diabo imitando um santo? Não parece um sujei-to hipócrita, não parece o Tartufo falando?

HJALMAR

Crês que um homem possa digerir tão facilmente o cálice amargo que acabo

de engolir?

GREGERS

Um homem comum, não. Mas um homem como tu!

 

184 Professor José Monir Nasser