Tartufo, O Pato Selvagem

José Monir Nasser · Capítulo 15 de 62

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Tartufo, O Pato Selvagem

Werle

Mas foi Ekdal quem desenhou o mapa do terreno... aquele mapa errado. Foi

ele quem fez o corte ilegal nos terrenos do Estado. Sabes perfeitamente que

era ele quem dirigia toda a exploração em cima. Quanto a mim, ignorava os

empreendimentos do tenente Ekdal.

GREGERS

O tenente Ekdal provavelmente ignorava o alcance de seus empreendimentos.

WERLE

É bem possível. Mas um argumento sem réplica é que foi condenado e eu fui

absolvido.

GREGERS

Sim. Eu sei perfeitamente que não havia provas.

WERLE

Uma absolvição é uma absolvição. Para que mexer nessas histórias que me

embranqueceram os cabelos antes do tempo? (pág. 175)

PROF. MONIR: É uma conversa cheia de enigmas. Aparentemente houve uma polarização da culpa. O velho Ekdal e o Sr. Werle eram sócios, mas um só levou a culpa de tudo. Saímos deste trecho com a sensação de que o te-nente Ekdal foi usado como bode expiatório, levando a culpa toda de algo que poderia ter responsabilidade mútua.

ALUNA: Parece que Ibsen já estava anunciando a tragédia quando ele colo-ca treze pessoas à mesa, como uma referência à Santa Ceia.

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 133 PROF. MONIR: É, o 13 não é um número que tenha uma simbologia profun-da, mas ele frequentemente implica a ideia de azar na superstição popular. A simbologia do número 13 é muito pequena em relação aos outros nú-meros. Mas aqui há seguramente uma indicação de que alguma coisa está errada, a senhora tem razão.

O velho Werle insiste em que nada mais pode fazer e que, quando Ekdal ha-via saído da prisão, “era um homem liquidado”. Completa como para justifica se: “Arranjei para Ekdal trabalho de cópia no escritório e pago lhe muito mais do que o serviço vale”.

PROF. MONIR: Como se ele tivesse querendo redimir alguma espécie de cul-pa por ter saído ileso enquanto o seu sócio acabou indo preso.

A cobrança do filho continua e progride para o casamento de Hjalmar com Gina Hansen.

WERLE (com um sorriso irônico, porém frio)

Eu não julgava que tu te interessavas particularmente pela nossa antiga

criada.

GREGERS

E tinhas razão. Mas... (Baixa a voz.)... mas havia em casa alguém que se

interessava muito especialmente por ela.

WERLE

Que queres dizer? Não é a mim a quem aludes?

 

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GREGERS (em voz baixa, mas com firmeza)

Sim, é a ti.

PROF. MONIR: Pronto. Gregers primeiro acusa o pai de ter deixado o sócio se dar mal e agora o acusa de ter tido um caso com Gina, a mulher atual de Hjalmar.

WERLE

Tu ousas! Tu te permites! Esse ingrato, esse fotógrafo, como pode ele... como

ousa ele, fazer semelhantes insinuações!

GREGERS

Hjalmar não me disse uma única palavra a respeito. Não creio que ele suspeite

de alguma coisa.

WERLE

Mas então de onde te vem essa ideia? Quem te pode dizer semelhante

loucura?

GREGERS

Foi a minha pobre, a minha infeliz mãe, na última vez que a vi. (págs. 176-177)

PROF. MONIR: Essa é uma das linhas-chaves da obra. Gregers faz uma insinu-ação muito clara de que a morte da mãe dele teria sido de alguma maneira causada pelo marido. Aqui há uma acusação de adultério. Gregers insinua que seu pai havia tido um caso com Gina, que na época deveria ser muito jovem, e de depois, para se livrar da moça, ter-lhe arrumado um casamen-to conveniente com Hjalmar, o filho de seu antigo sócio. Além disso, para

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 135 compensar o que havia feito, ele estava dando uma quantia de dinheiro ex-cessivamente alta para o velho Ekdal por meio de um pretenso serviço de cópia. Então Gregers, no mesmo dia da recepção em sua homenagem, está fazendo uma enorme denúncia contra o pai, que nasceu da interpretação do que estava acontecendo com a família de Hjalmar.

O velho acusa o filho de ter se entrincheirado lá em cima19, de se “esfalfar como um simples empregado sem querer ganhar nem um vintém a mais que os ordenados comuns” e propõe ao filho sociedade e uma troca de lugares: “Tu poderias dirigir a casa de comércio, e eu iria estabelecer-me nas usinas”. Gregers retruca que “deve haver aí qualquer coisa escondida”. O velho responde que estava só e precisava de mais companhia do filho. Gregers diz ao pai que não se oporia ao casamento dele com a Senhora Soerby. O pai agradece: “É para mim um grande conforto saber que posso contar contigo nesse assunto”. Gregers ironiza: “Como seria lindo se pudessem dizer que, arrastado pela piedade filial, o filho voltara a casa para assistir às bodas do velho pai”.

PROF. MONIR: Qual o principal sentimento que está organizando a vida emocional de Gregers com relação ao pai dele?

ALUNA: Mágoa.

PROF. MONIR: Tem uma mágoa aqui, que está associada a uma coisa muito antiga. Essa coisa muito antiga parece ser a morte da mãe.

 

19 Nota do resumidor – Nas usinas de Heydal.

 

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